Afuá
O município de Afuá localiza-se no arquipélago do Marajó. Cidade ribeirinha que ainda preserva características tradicionais relacionadas à Várzea. Apresenta a palafita como tipologia predominante e ruas em estivas de madeira, que mais recentemente têm sido substituídas por concreto.
Aspectos históricos, sociais, econômicos, culturais e geográficos relacionados à arquitetura vernácula
Cidade ribeirinha que ainda preserva características tradicionais relacionadas à Várzea. Apresenta a palafita como tipologia predominante e ruas em estivas de madeira, que mais recentemente têm sido substituídas por concreto. Este assentamento humano ribeirinho, localizado entre rios e próximo ao oceano existe há 174 anos. A sede municipal tem um tamanho pequeno em comparação à extensão do município, e funciona como entreposto comercial e ponto estratégico, inserido no estuário Amazônico (VICENTE; CARDOSO, 2019).
Seleção Imagem – Aspectos históricos, sociais, econômicos, culturais e geográficos relacionados à arquitetura vernácula
Descrição do tipo de aglomerado urbano ou rural e de sua tipologia físico-espacial
O município de Afuá localiza-se no arquipélago do Marajó. Ao Norte faz fronteira com o município de Chaves e com o Estado do Amapá e na parte Sul com os municípios de Breves e Anajás. A extensão da sede municipal (141,5 ha) corresponde a apenas 0,01% da totalidade do município (837.279,5 há). Sua população em 2022 era de 37.765 pessoas (IBGE, 2022), com 58% da população rural. A economia do município baseia-se principalmente no extrativismo de madeira, palmito e pesca, bem como na administração pública. A emancipação do território do Amapá do estado do Pará, e posterior criação do estado do Amapá, reposicionaram a sede do município de Afuá na micro rede urbana regional sob influência direta de Macapá (VICENTE; CARDOSO, 2019). Apesar do acesso à cidade ocorrer somente pelo rio, são 36 horas de viagem de barco desde Belém, e 4 horas de barco ou 2 horas de lancha desde Macapá (BIBAS, 2018). Este fato favoreceu o acesso a materiais industrializados.
Em Afuá o rio estrutura a ocupação do território. Em 1920, a sede de Afuá era um pequeno vilarejo, que rodeava a praça da igreja Matriz. Em 1940 a cidade era constituída pela rua que faz a “frente” do rio Afuá, por sua paralela e pelas travessas que começavam a surgir perpendiculares às mesmas. Neste período houve também a implantação do cemitério, na época, afastado no núcleo populacional. Após a construção da pista de pouso para bimotores, a cidade expandiu-se rumo ao continente, consolidando a primeira parte da ocupação até 1980, que corresponde ao bairro do Centro (VICENTE; CARDOSO, 2019). Entre 1980 e 2006 a área posterior à pista de pouso começou a ser ocupada, originando ao segundo bairro de Afuá, o Capim Marinho (ROCHA, 2017). A cidade passou por crescimento populacional expressivo entre 2007 e 2009 e pós- 2010, após a criação, na área rural do município, do Parque Estadual do Charapucu, que imobilizou uma grande área verde para proteção integral sem ocupação humana, embora essa área sempre tenha sido manejada pela população nativa. A criação do parque causou a migração das famílias para a sede de Afuá, o crescimento populacional e a expansão do bairro Capim Marinho (BIBAS, 2018).
Descrição geral da forma assumida pelo aglomerado urbano na área focalizada no verbete
A edificação predominante são as palafitas, configuradas de modo particular e articuladas às estivas. As edificações são construídas sobre pilotis de madeira em uma altura já conhecida pelos moradores da região, ou seja, altura suficiente para que a água em sua ocorrência máxima não adentre a residência (VICENTE; CARDOSO, 2019). A casa típica atende tem sua configuração adaptada conforme a demanda da família (número de cômodos, dimensionamento), entretanto, existem elementos marcantes na distribuição dos cômodos da casa, que caracterizam um tipo básico de edificação. Entre o rio e a casa existem o trapiche e a estiva. O trapiche como local de desembarque e atracação das embarcações e a estiva como ponte de conexão, com gradações de acesso que vão de espaço público (funcionando como rua em vilas maiores), ao semipúblico, nos segmentos de acesso às casas. O trapiche e a estiva são também locais de sociabilidade, de encontro, conversa, trocas. A estiva dá acesso à varanda, ou pátio, que pode ser só frontal ou também lateral. O páteo também é um local de transição, onde acontece o primeiro contato com a visita, e por isso é comum que contenha bancos ou redes (VICENTE; CARDOSO, 2019). Há algumas diferenças na apropriação do entorno das edificações na sede e nas vilas de Afuá. Nas vilas o sistema palafítico é instalado em uma clareira, chamada de quintal, com compartimentos externos ligados por estivas – varanda, jirau, banheiro e pátio, além dos compartimentos internos das residências, como os quartos e sala. Na sede ocorrem variações desse arranjo, com quintais menores, onde a possibilidade cultural de plantar e de criação de animais é quase inexistente. Na sede também se encontram edificações de comércio e serviço, com porte construtivo diferente do conjunto arquitetônico palafítico destinado à moradia.
A esse respeito é importante mencionar o estudo de Mesquita (2017), que identificou quatro categorias de construções na cidade de Afuá, a primeira já descrita, o conjunto arquitetônico palafítico típico do município, de onde surgem variações, que misturam soluções de vedação e cobertura. Nas variações em que a coberturas e elementos estruturais são construídos em madeira, com fechamento em ripas verticais, os planos de telhados não acompanham a solução típica de duas águas típica, outra variação usa a madeira com fechamento em ripas verticais, mas produzindo desenhos particulares nas varandas, inspirada em arquitetura erudita. A quarta variação na verdade promove a ruptura, ainda que mantenha as dimensões originais substitui a madeira por outros materiais, abandona a palafita e constrói sobre laje, emulando a edificação em lote de terra firme. Esta alteração está transformando a paisagem ribeirinha com construções que seguem uma linguagem funcionalista, copiada de outros centros urbanos, especialmente nas edificações destinadas à serviços, como bancos e escritórios. Também há soluções que misturam madeira e novos materiais, como o concreto e a alvenaria. Bibas (2018), também identificou mudança na configuração dos espaços de transição, localizado na frente das casas, por meio do movimento de murar e cercar.
Tipologia Arquitetônica
Ameaças à continuidade do(s) tipo(s) identificado(s)
A dificuldade de acesso a materiais de construção tradicionais, como madeira de alta qualidade, é a ameaça mais evidente. O desmatamento é a principal ameaça à continuidade dos conjuntos arquitetônicos associado à violência simbólica da imposição de novos materiais como símbolo de progresso e modernidade, os arranjos ribeirinhos são estigmatizados como obsoletos para os novos padrões econômicos, ainda que sejam muito menos sustentáveis.
Existe algum tipo de acautelamento, como patrimônio cultural material, imaterial ou natural relacionados a este verbete? *
O Parque Estadual de Charapucu, foi constituído como unidade de conservação como resposta ao desmatamento, desalojando população nativa que sempre foi capaz de conviver com a vegetação.
Referências
BIBAS, L. O espaço tradicional em contexto periférico: inadequações e tensões entre visões de mundo, o caso de Afuá. 2018. Dissertação, UFPA. Belém, 2018.
MESQUITA, F.J. Arquitetura vernacular ribeirinha, patrimônio cultural nas Amazônias: o caso de Afuá-PA. 2017. 222f. Dissertação– Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural, Rio de Janeiro, 2017.
ROCHA, M.C. Quando a cidade convida: lições de urbanidade e configuração em assentamentos limitados. Dissertação– Universidade de Brasília, Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Brasília, 2017.
VICENTE, L. R.; CARDOSO, A. C. D. Estudo de tipologias espaciais de assentamentos humanos em Afuá e suas derivações. Relatório Técnico Cientifico Final- PIBIC-UFPA-FAU. 2019.