Casa Pantaneira – Comunidade Tradicional Cuiabá Mirim
Casa Tradicional da Comunidade Ribeirinha Cuiabá Mirim, localizada às margens do Rio Cuiabá, em Barão de Melgaço, Pantanal Mato-grossense.
Apresentação sucinta – Quem são
O Pantanal foi por muito tempo território das nações indígenas Guató, Bororo, Paiaguás e Guaicuru. A partir do século XVI colonizadores, jesuítas, bandeirantes e monçeiros passam a fazer parte da história do Pantanal.
Os vários agrupamentos humanos que ocupam hoje o Pantanal são diferentes entre si, nas atividades desenvolvidas, nas relações e percepções do ambiente e na constituição étnica (SILVA LEITE, 2003).
O presente estudo foi desenvolvido em uma comunidade tradicional do rio Cuiabá. Os moradores da comunidade são reconhecidos tanto como pantaneiros, como ribeirinhos. Da Silva & Silva (1995) definem ribeirinhos como: “…população que vive a beira dos rios, com maior identificação com a água do que com a terra, e com atividade predominantemente pesqueira, apoiada pela agricultura de várzea e de terra firme”.
A principal atividade econômica desenvolvida pelos membros da comunidade Cuiabá Mirim é a pesca artesanal. Muitas famílias praticam a agricultura de subsistência, e algumas praticam a pecuária de pequena escala.
Aspectos históricos, sociais, econômicos, culturais e geográficos relacionados à arquitetura vernácula
A relação dos moradores da Comunidade Tradicional Cuiabá Mirim e a paisagem pantaneira é uma das peças chaves da arquitetura vernacular produzida por essa comunidade. A multiplicidade de usos e relações com a paisagem, a condição de acesso às unidades de paisagem que compõem o Pantanal e as relações de subsistência, são os mecanismos por onde é construído o conhecimento tradicional desta comunidade.
A subsistência é uma relação chave entre o pantaneiro e o ambiente. Os pantaneiros de Cuiabá Mirim desenvolvem várias atividades de subsistência como: agricultura, extração, coleta, pesca, caça, pecuária de pequena escala e manufaturas de casas, canoas e apetrechos de pesca. De acordo com Toledo (2001), em comunidades tradicionais a diversidade de produtos obtidos no ecossistema e a integração de diferentes práticas de subsistência resultam na máxima utilização das paisagens disponíveis pelo ambiente.
Os moradores de Cuiabá Mirim são todos pantaneiros nascidos na comunidade ou em comunidades próximas.
A chegada de pessoas para formação dessa comunidade ocorreu em dois momentos: o primeiro seria com a chegada dos primeiros moradores que se instalaram no local, há aproximadamente 60 anos e o segundo momento ocorreu, com a chegada das pessoas que vieram em 1979 devido à venda da Fazenda Flexas, detentora das terras onde a comunidade está localizada.
Em relação a escolaridade, 48% das pessoas dessa comunidade não é alfabetizada.
A principal atividade desenvolvida pela comunidade é a pesca, onde os homens praticam a pesca artesanal comercial e as mulheres e crianças praticam a pesca artesanal de subsistência.
Arquitetura
Época de construção/Transformações
Inserção na paisagem
As cheias do Pantanal fazem parte da dinâmica da paisagem e da vida ribeirinha, como forma de adaptação e manejo dessas inundações , em Cuiabá Mirim os locais onde as casas são construídas são escolhidos em áreas naturalmente um pouco mais elevadas do que o entorno, e a esta elevação natural é somado um pequeno aterro feito com pedra e barro, com altura entre 10 e 40 cm.
Entre as casas e o rio existe um dique com altura variando entre 0,50m e 1,00m, que na comunidade é chamado de açude. O dique passa em frente de todas as casas da comunidade e quando chega na ultima casa, faz uma curva e segue passando por trás das casas da comunidade.
O moradores costumam colocar mais barro todo ano no açude, pra que ele possa resistir à cheia. Cada família é responsável pela parte do açude que passa em frente da sua casa.
O dique além de ser um elemento de proteção das inundações naturais do Pantanal, delimita o espaço doméstico e o espaço da comunidade, funcionando como um espaço de trânsito livre por todos.
Implantação no espaço/lote
A implantação típica das casas tradicionais é um retângulo paralelo ao rio, com pequenas janelas voltadas para frente da casa.
Entre as casas e o rio está localizado o dique, que de certa forma delineia o espaço doméstico e o espaço da comunidade.
Em Cuiabá Mirim, as visitas são recebidas fora de casa, em bancos na sombra de árvores. A casa é pouco usada durante o dia. As únicas atividades que ocorrem dentro de casa são repouso e cocção de alimentos (realizada na edificação dos fundos).
O dia a dia é vivido no terreiro,.na roça e no rio.
Fachada, vãos e esquadrias
Na edificação principal, localizada na parte da frente do espaço doméstico, as janelas são pequenas e voltadas para o rio. Essas pequenas aberturas deixam o ambiente no interior da casa, com iluminação reduzida e com uma temperatura agradável em relação ao exterior.
As portas são baixas, costumam ter em torno de 1,60m, revelando uma possível relação das casas ribeirinhas com as habitações produzidas pelas populações indígenas do Pantanal.
Planta e agenciamento interno
Cuiabá Mirim possui casas “de material” (alvenaria) e casas “de barro” (pau-a-pique). As casas de barro possuem estrutura de madeira, vedações de pau-a-pique e cobertura de palha. O desenho mais comum registrado na comunidade é um retângulo de aproximadamente 8x4m, dividido em duas partes iguais (quarto do casal e quarto dos filhos, que também é usado como sala), e mais duas edificações separadas da edificação principal, que atendem a função de cozinha e banheiro.
O acesso frontal da casa é feito pelo quarto dos filhos/sala. E o acesso para os fundos é feito pelo quarto do casal.
Bens móveis e integrados e/ou mobiliário
As casas possuem poucos móveis, o mobiliário geralmente é constituído de um armário com uma coleção bem cuidada de utensílios de cozinha, como panelas e louças, que pode ficar na cozinha (na edificação dos fundos) ou na edificação da frente (no quarto dos filhos ou no quarto do casal).
Na sala, que também faz às vezes de quarto dos filhos, o móvel principal é uma pequena mesa de santos e objetos especiais para família, além de bancos (que durante o dia ficam do lado de fora da casa) e redes (que são armadas apenas durante a noite).
Na casa “de barro” algumas poucas famílias usam camas, geralmente há uma ou duas camas, e os demais membros da família dormem em redes.
As roupas são guardadas em malas, caixas ou penduradas no madeiramento da casa.
Sistema construtivo, materiais e estado de conservação
Os materiais utilizados na construção da casa de barro são extraídos do ambiente.
As pedras dos alicerces e as madeiras usadas na estrutura vem das unidades de paisagem chamadas morrarias (terras altas onde pedras e madeiras mais resistentes podem ser encontradas).
A palha e a madeira usada na cobertura e na trama de pau-a-pique vêm das matas que ficam próximas à comunidade.
Técnicas Construtivas Vernáculas
Técnicas Construtivas Vernáculas Resumidas
A ser completado.
Inserção das construções vernáculas na paisagem
As casas da comunidade tradicional Cuiabá Mirim apesar de profundamente simples, revelam uma estreita relação das pessoas com o lugar onde vivem.
Cada elemento construtivo da casa tradicional, está relacionado a uma unidade de paisagem do Pantanal, a uma prática, a um modo de extração, coleta e manuseio.
O conhecimento tradicional das comunidade ribeirinhas, compreende um amplo conhecimento sobre o Pantanal e sua dinâmica de inundações, e constroem um modo de vida muito singular, fortemente delineado pelo ritmo das águas.
Simples mudanças no modo de vida, como construção de casas “de material”, e a desvalorização das casas ‘de barro” alteram essa relação estreita entre as pessoas e a paisagem. Fragilizam e rompem elos ancestrais entre as pessoas e o lugar.
Existe algum tipo de acautelamento, como patrimônio cultural material, imaterial ou natural relacionados a este verbete?
Não existe acautelamento.
Referências
DA SILVA. C.J & SILVA, J.A.F. 1995. No ritmo das águas do pantanal. Nupaub –USP. São Paulo.
GALDINO, Y. S. N.; SILVA, DA SILVA, C. J. Casa e Paisagem Pantaneira: conhecimento e práticas tradicionais. Cuiabá: Carlini&Caniato Editorial, 2009.
SILVA LEITE, M.C. 2003. Águas Encantadas de Chacororé: natureza, cultura, paisagens e mitos do Pantanal. 1ed. Cuiabá: Cathedral Unicem Publicações, 156p.TOLEDO V. M. 2001. Indigenous Peoples and Biodiversity. In: Encyclopedia of Biodiversity. Vol.3. Academic Press.