Arquitetura a imigração alemã no Vale do Itajaí em Santa Catarina
A imigração alemã, a partir de meados do século XIX, deixou um legado arquitetônico e urbanístico, principalmente no Vale do Itajaí, que concentra o maior acervo de arquitetura enxaimel do país. A cultura alemã impregnou a região, quer seja pela escolha do sítio, os costumes ou a forma de apropriação do ambiente natural. No entanto, são os exemplares da arquitetura enxaimel que caracterizam, mais claramente, a especificidade das paisagens urbanas e rurais do Vale do Rio Itajaí. Muitos exemplares, principalmente nas pequenas cidades e no meio rural, ainda se destacam nas paisagens, conformando cenários singulares, ressaltando, claramente, a identidade local.
Aspectos históricos, sociais, econômicos, culturais e geográficos relacionados à arquitetura vernácula
Os fluxos de imigração alemã para o Brasil foram de pequenas proporções se comparados com outros países preferenciais de destinação, como Estados Unidos e Argentina. No Brasil quase não houve colonização espontânea. Desde o princípio, a colonização no Brasil foi organizada, planejada, subvencionada e dirigida, quer seja pelo governo central, províncias ou estados e municípios, companhias particulares ou proprietários de terras individualmente. (ROCHE, 1969) Os métodos aplicados e os resultados obtidos diferiram muito, de acordo com o tipo de colonização. (WAIBEL, 1979) A vinda de alemães foi incentivada pelo Imperador Dom Pedro I, que pretendia povoar o Brasil meridional, a partir de pequenas propriedades fundiárias. A fundação da colônia São Pedro de Alcântara em 1829, marcou o início das migrações, com alemães oriundos de Bremen. Parte deles, desloca-se para Gaspar em 1835, iniciando a ocupação que se expande pelo Vale do Itajaí. Depois, de um período de interrupção, o movimento migratório é foi retomado, formando os três principais centros coloniais alemães: Blumenau (1850); Brusque (1860) nos vales dos Rios Itajaí-Açu e Itajaí-Mirim, e a colônia Dona Francisca (hoje Joinville), que se instalou, em 1851, na Baía de Babitonga, às margens do Rio Cachoeira e nas proximidades da antiga colônia açoriana de São Francisco do Sul. (CABRAL, 1970) Torna-se importante não esquecer que a Alemanha, enquanto unidade política, só existe após 1871, ou seja, 21 anos após o início do ciclo migratório, portanto os imigrantes eram provenientes de reinos diversos, que só mais tarde seriam unificados num Estado nacional.
Blumenau resulta da concessão de terras, feita pelo Governo Provincial, ao Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau, visando a criação de uma colônia agrícola, concebida nos moldes utópicos europeus de meados do século XIX. (FOUQUET, 1950) A partir de 1852 inicia-se a repartição dos 12 primeiros lotes, construída a primeira igreja e montado o barracão de madeira para hospedagem provisória dos imigrantes, marcando, assim, a fundação da colônia. (SEYFERTH, 1974) Em 1859, as adversidades encontradas fazem Dr. Blumenau proceder à transferência da colônia para o Governo, o que favorecerá enormemente o fluxo migratório. Dali em diante, a colonização tornou-se mais ágil e espalhou-se rapidamente pelo Vale, constituindo os atuais municípios de Gaspar, Indaial (1859), Timbó (1869) e Ibirama (1897). (PIAZZA, 1982) Enquanto nas áreas de Brusque e Luís Alves a ocupação era limitada pelas características do relevo, as condições na bacia do Itajaí-Açu, a montante de Blumenau, eram bastante favoráveis à colonização (PELUSO JR., 1950), disseminando um grande patrimônio arquitetônico regionalmente. Em 1863, os primeiros imigrantes, liderados pelo colonizador Ferdinand Hackrath, decidiram subir um afluente do Rio Itajaí-Açú, o Rio do Testo, fundando ali uma colônia, hoje Pomerode, dedicada, até a virada do século XX, à agricultura e à pecuária de subsistência, com pequenos pontos comerciais nas áreas centrais. Pequenas empresas familiares de laticínios, embutidos, móveis e cerâmica deram início à industrialização do município, na virada do século. Apesar de ter sido desmembrada de Blumenau em 1959, Pomerode gravita em torno de sua influência, preservando mais fortemente as características alemãs, já que não conheceu um significativo processo de crescimento urbano e a consequente pressão sobre o parcelamento do solo e pela renovação de seu patrimônio arquitetônico.
O processo de expansão da colonização avançou do rio Itajaí-Açu em direção às margens do rio Itajaí-Mirim, onde, em 1860, foi instalada a colônia Itajahy, atual cidade de Brusque. Novas levas migratórias vieram se somar, com a chegada de ingleses (em 1867) e poloneses (em 1869), mas a mais importante foi a vinda de 10 mil imigrantes italianos (em 1875). (CABRAL, 1970) Os poloneses migraram, também, para outras localidades próximas, como foi o caso de Indaial ou Rodeio. A chegada de italianos, após 1875, além de ocupar diversas áreas já estabelecidas de colonização alemã (Blumenau, Indaial, Gaspar), iniciou outras nucleações como Rodeio ou Luís Alves que, por sua vez, também receberam alemães ou poloneses, além de outras nacionalidades minoritárias (franceses, austríacos e belgas), dando ao Vale do Itajaí uma característica multicultural, apesar da predominância da paisagem alemã. (SEYFERTH, 1974)
As dificuldades e o isolamento a que os imigrantes foram submetidos nas primeiras décadas de colonização, tanto por força da falta de meios e incentivos, como pelos regulamentos e contratos de muitos processos de colonização, levaram a um forte espírito de solidariedade étnica. (ROCHE, 1969) As dificuldades territoriais também dificultavam deslocamentos e conexões com o restante do país. A somatória das condicionantes regulamentares, espaciais e a homogeneidade étnica lançou as bases para a manutenção das especificidades culturais como não se observa em outras regiões do país. Através das escolas, clubes, sociedades culturais e artísticas, jornais locais, manteve-se uma forte identidade e criou-se uma cultura urbana própria, com interferências na estruturação da vida quotidiana. A venda do vilarejo cumpria a função de crédito aos agricultores e, pela dificuldade da língua, servia de intermediário entre a colônia e o mundo exterior. (PIMENTA, 1999) Falava-se quase somente o alemão. A campanha de nacionalização, desencadeada por Getúlio Vargas em 1938, foi um golpe brutal nas instituições de difusão da cultura alemã, como escolas e associações, fazendo recuar a língua alemã para a esfera da vida privada. (SEIFFERT, 1997; HACKENHAAR, 2015) Entretanto, apesar dos anos de guerra, durante os quais os teuto-brasileiros e sua cultura foram colocados sob suspeição, as tradições alemãs eram suficientemente fortes e arraigadas para sua manutenção, reprodução e renascimento sob novas formas em períodos mais recentes.
Várias fatores interferiram nesse sentido, marcando profundamente a estruturação regional: a ausência de um setor de acumulação de capital mais importante, anterior à imigração, que tivesse gerado comércio, atividades financeiras, de transporte e portuária de maior significado; a ausência de uma região com urbanização importante, assim como a ausência de cidades de maior porte; ausência de classes dominantes mais estruturadas e mais importantes no cenário nacional. Desta forma, os pólos industriais de Santa Catarina tiveram condições bastante particulares para se desenvolver. Havia somente um mercado regional constituído pelo excedente da pequena produção que seria exportada, gradativamente, de maneira bastante precária, para o centro-sul do país. (PIMENTA, 1994)
A pequena propriedade rural, desenvolvida a partir do trabalho familiar, marcou a paisagem em quase toda a região sul do país, conferindo características bastante particulares à sua economia, em forte contraste com o restante do país, onde predominou a grande propriedade monocultora. (PRADO JR, 1976) A área rural não conheceu grandes extensões inabitadas, como no restante do país, e constituiu-se por um parcelamento em pequenas propriedades, nucleadas por pequenos centros, inicialmente, comerciais. Os migrantes eram constituídos por trabalhadores qualificados, e, logo a partir de alguma acumulação mercantil, instalaram atividades artesanais e industriais, formando as principais centralidades urbanas. (PIMENTA, 1994) Ainda no século XIX, outras pequenas manufaturas foram montadas pelo interior das áreas de ocupação do Vale do Itajaí. (HERING, 1950; HERING, 1987) Essas fábricas, localizadas hoje nas áreas centrais de diversos municípios, deixaram um legado impressionante em termos de patrimônio industrial que deveria ser restritivamente protegido. Há que se destacar, ainda, que a implantação dessas indústrias, nos fundos dos vales, seguia modelos dos países europeus de origem, organizando, com características peculiares, a estrutura e a expansão da malha urbana.
O desenvolvimento de atividades fabris, o pequeno artesanato e a qualificação técnica em diversas áreas, combinadas com o mercado constituído pela pequena agricultura mercantil de produtores independentes, impulsionaram a urbanização regional. Com diferentes graus de intensidade, alguns municípios vieram a apresentar, posteriormente, grande desenvolvimento urbano-industrial, marcando em diferentes ramos e setores sua presença no processo de industrialização brasileiro. (PIMENTA, 1994) O Vale do Itajaí iria constituir a região têxtil e confeccionista mais importante do país. Indústrias como a Hering, por exemplo, constituída a partir de uma minúscula produção doméstica no séc. XIX, tornar-se-ia uma das maiores produtoras de malhas do país. (HERING, 1987) Outras empresas, igualmente importantes, formaram uma região econômica no setor têxtil, a única no Brasil, destacando-se a Artex, Renaux, Altenburg, Karsten, Teka, entre outras.
No período compreendido entre as duas Guerras Mundiais, Blumenau consolidou-se como centro de uma vasta região de atração de imigrantes, que se dispersavam através dos vales da bacia do Itajaí. Blumenau tornou-se, também, o centro de animação da vida regional teuto-brasileira. A arquitetura inicial em madeira foi sendo, gradativamente, substituída pelo enxaimel. A rua comercial reunia atividades comerciais e vida religiosa dos diferentes cultos. A solidariedade regional é ainda mais forte, devido à extrema diferença que interpõe vida comunitária e mundo exterior. As estratégias de crescimento da indústria e da economia local dependiam, cada vez mais, da criação de relações étnicas regionais e ultramarinas particulares. Sem vantagens locacionais e sem apoio do governo central, os empresários serviram-se de múltiplos laços étnicos e culturais para formar a grande região têxtil nacional. (PIMENTA, 1996) Santa Catarina apresentou um crescimento industrial marcante nos períodos das duas guerras mundiais, aumentando suas exportações, devido às dificuldades econômicas dos países implicados nesses conflitos. (PIMENTA, 1994) Até a década de 1980, o Brasil vinha conhecendo um crescimento constante do PIB, chegando a atingir 13,97%, em 1973. Daí em diante, há um arrefecimento, com oscilações negativas no início da década de 1980, em 2009, 2014-2016 e em 2020. (Dados do IBGE) A economia catarinense sofre alguns revezes, principalmente no setor secundário, acompanhando a política de desindustrialização crescente no país. (SC, junho 2024)
Recentemente, Santa Catarina acompanha o movimento decrescente da economia nacional, que ocorre a partir de 2021. Nesse período, o PIB nacional recua de 6,8% a 3,7% (2023) e o PIB de Santa Catarina, de 4,8% a 2,9%, uma queda menos acentuada, já que parte de resultados mais modestos. (SC, março 2024). O setor textil e confeccionista ainda representa em torno de 10% do total da transformação industrial no Estado, que se diversifica ao longo das décadas e está voltado, em sua maior parte, para o setor agropecuário. (CNI, 2021) A indústria da confecção de Santa Catarina ainda desempenha um papel de destaque em nível nacional, tendo crescido em 4,6 pontos percentuais sua participação nacional de 2020 a 2021, passando de 26% para 31%. A indústria catarinense manteve a liderança nas atividades de acabamentos em fios, têxteis e na fabricação de tecidos de malha, sendo que os dois últimos possuem representatividade nacional maior que 55%. (FIESC,2023)
Durante todo esse percurso e apesar dos sobressaltos causados pela falta de proteção do estado nacional, o Vale do Itajaí mantém a primazia da atividade têxtil e confeccionista que é responsável por, aproximadamente, 26% do valor adicionado fiscal. (SC,2013) O Vale do Itajaí preserva, assim, sua vocação industrial, ocupando a terceira posição em relação ao PIB estadual. (CNI, 2021) Mesmo mantendo a predominância da indústria têxtil e do vestuário, o Vale desenvolve, mais recentemente, outros ramos, como a indústria naval e de tecnologia da informação, além da atividade turística que se baseia, sobretudo, nas peculiaridades das tradições teuto-brasileiras, incluindo as festas germânicas locais, entre elas, a Oktoberfest. (SEPROSC, 2017)
Entre os municípios que responderam por 50% da economia estadual, em 2021, grande parte deles encontra-se no Vale do Itajaí, entre eles: Itajaí (11,2%), Blumenau (4,8%), Brusque (2%). (SC, 2023) Blumenau é a terceira cidade em população do Estado (361.261 habitantes), sendo que a população da Região Metropolitana do Vale do Itajaí ultrapassa 800 mil habitantes. (IBGE, 2022). Considerando-se a exígua área de ocupação central e o fato de que a malha urbana se desenvolve e se expande nos fundos de estreitos vales incrustados entre morros, pode-se imaginar a pressão exercida sobre o legado patrimonial, que se encontra, sempre, fortemente ameaçado. A conformação geográfica, associada ao crescimento populacional e à consequente demanda imobiliária, pesam, sobremaneira, sobre o processo de renovação urbana, que fez desaparecer imóveis patrimoniais das áreas centrais.
Se o processo de industrialização e o desenvolvimento de atividades urbanas muitas vezes ameaçaram a preservação patrimonial nos grandes centros regionais, um grande número de exemplares arquitetônicos de valor patrimonial ainda permanece, povoando os campos e as pequenas cidades do Vale do Itajaí. Todas as peculiaridades de adaptação às condições locais brasileiras e a valorização das raízes étnicas numa região que permaneceu, por muito tempo, distante dos eixos de desenvolvimento dinâmico nacional formaram, sem dúvida, uma cultura teuto-brasileira, que deixou marcas visíveis na paisagem regional e nos espaços das cidades. (SEYFERTH, 1994) Naqueles fundos de vale, vigorava a concepção alemã “que distingue entre origem étnica (Volkstum) e cidadania (Staatsangehörigkeit) distinção essa que se não conhece entre outros povos que sempre tiveram a felicidade de viver reunidos”. (FOUQUET, 1950, p. 88) Puderam, assim, erigir sobre o novo território, uma sociedade complexa e unitária. Construindo estratégias próprias, econômicas, culturais e sociais, foram incorporando ao território nacional, acrescendo sua especificidade no enriquecimento de uma sociedade diversificada e plural.
Descrição do tipo de aglomerado urbano ou rural e de sua tipologia físico-espacial
O médio Vale do Itajaí possui uma característica histórica unificadora, derivada da colonização realizada por migrantes alemães, vindos para Santa Catarina, a partir de meados do século XIX. Reconhecida, posteriormente, como Região Metropolitana do Vale do Itajaí (SC, 2010), abrange 14 municípios, entre os quais, Blumenau (361.855 habitantes), Brusque (137.689 hab.), Indaial (70.900 hab.), Gaspar (70.793 habitantes), Timbó (44.977), Pomerode (34.010), seguidos por municípios menores, como Apiúna, Ascurra, Benedito Novo, Rio dos Cedros e Rodeio (com população em torno de 10 mil habitantes). Botuverá (5.322 habitantes) e Guabiruba (24.382) desmembraram-se do município de Brusque na década de 1960. O município de Doutor Pedrinho foi desmembrado de Benedito Novo, em 1988 (lei Estadual 1.101 de 4 de janeiro de 1988). (SC, 2020).
A Bacia hidrográfica do rio Itajaí-Açu está inserida no domínio da Mata Atlântica, dividida em três áreas com características geológicas e geomorfológicas diferentes (o alto, o médio e o baixo vale), desde o interior, indo em direção ao litoral. As empresas de colonização elegeram os sítios mais adequados à implantação da ocupação ao longo do Vale. Entrando pelo porto de Itajaí, os alemães instalavam-se nos barracões provisórios, destinados à recepção de imigrantes. Rapidamente, deslocavam-se, para os fundos dos Vales dos rios Itajaí-Açu e Itajaí-Mirim, que se encrustavam no interior de um relevo bastante acidentado, formando pequenas faixas planas, com alguns pequenos alargamentos, onde se implantavam as vilas, que centralizavam o processo de ocupação rural. (Fig.1) O Dr. Blumenau escolhe o ponto onde o Rio Itajaí-Açu é navegável e que permite a instalação do porto, essencial para o contato com o exterior, quer seja para o comércio ou para os deslocamentos através do rio. Ali se instala o núcleo urbano de Blumenau (1850) e, ao seu lado, Pomerode (1853). De Blumenau, a colonização avança pelo Itajaí-Mirim, criando Brusque (1860), seguindo a mesma lógica locacional. Pelo vale do Itajaí-Açu, a colonização espalhou-se rapidamente, partindo das embocaduras do rio Garcia e do Ribeirão da Velha, constituindo os atuais municípios de Gaspar, Indaial (1859),Timbó (1869) e Ibirama (1897). (PIAZZA, 1982)
A maior parte dos assentamentos espalhava-se pelas margens dos rios, formando núcleos, hoje cidades, que exerciam a função de abastecimento comercial e de serviços para as pequenas propriedades rurais circundantes. (Fig.2) O rio se constituía em elemento central para a realização da vida social e econômica. Tornava-se indispensável para o transporte e comunicação, em uma área adversa e de difícil interconexão interior. A água era, também, utilizada como força motriz para a geração de energia, fazendo movimentar os moinhos e, posteriormente, as manufaturas produtivas. O espraiamento da ocupação ao longo dos vales dispersou as pequenas propriedades agrícolas, responsáveis pela pequena produção de subsistência e mercantil. O desenvolvimento precoce das manufaturas, em áreas centrais, mas também, nas zonas periféricas, deveu-se à qualificação técnica dos trabalhadores migrantes. Organizou-se, então, gradativamente, uma região econômico-industrial, com a predominância do setor têxtil e confeccionista. (SC, 2013)
Uma região se compõe de recursos geográficos, necessariamente contíguos, e de elementos espaciais que possuem fronteiras comuns. As regiões homogêneas são aquelas que tiram a sua originalidade do fato de pertencerem a uma unidade territorial, cujas partes apresentam as mesmas características, as mesmas aptidões, as mesmas oportunidades e formas de desenvolvimento semelhantes. (BOUDEVILLE, 1972) Se pode ser considerada uma microrregião econômica, pelas características comuns preponderantes, o Vale o Itajaí, principalmente o Médio Vale, destaca-se, sobretudo, por suas particularidades culturais.
Além da proximidade espacial e da ocupação das planícies fluviais, os núcleos que se constituíram no Vale do Itajaí, foram dotados de outras características similares nos traçados urbanos e na forma de apropriação das paisagens, devido à predominância dos traços culturais de origem germânica. A microrregião forma, assim, uma unidade com muitas semelhanças entre seus componentes, que se conformam e se desenvolvem ao longo do tempo. (BOUDEVILLE, 1972) O fato de apresentar características compartilhadas não significa estanqueidade, mas processos constantes de transformação, sob uma base histórica comum. De início, formou-se uma comunidade de base, construída sob elos de identidade étnica, cujo traço cultural foi trazido do país originário e adaptado às condições locais. O espaço em que se desenvolve a vida social cessa de ser res nullius [“coisa de ninguém”], adquire feições próprias. (CLAVAL, 2007) As interações com o ambiente e o novo meio social transformam a matriz originária, moldando o espaço e a paisagem, sob a influência dos recursos disponíveis, das técnicas e dos traços culturais. (SANTOS, 1988) A vida social justapõe, então, esferas mais ou menos hierarquizadas, desde o nível privado, individual ou familiar, às comunidades de pertencimento, até aos espaços públicos, onde se realizam as exposições, os contatos, as manifestações e as trocas. (ARENDT, 1993)
Por toda essa recorrência de fatores, pode-se afirmar que é possível caracterizar a existência de uma arquitetura e de uma paisagem identitárias que, assim, podem ser identificadas como representantes, não de uma única localidade, mas do desenho das paisagens do Vale do Itajaí. (Fig.3)Torna-se possível, então, dizer que existe uma arquitetura da imigração alemã, que se expande pelas planícies fluviais e arredores, com traços muito definidos, apesar de variações usuais, decorrentes do próprio caráter imaginativo do fazer construtivo. Cria-se, no seio dessa sociedade, solidariedades objetivas que, com o tempo, terminam por atribuir, ao espaço delimitado, uma verdadeira personalidade. (KAYSER, 1971) A arquitetura enxaimel, que se impõe e se adapta ao ambiente natural, imprime a marca de reconhecimento cultural, transformando, definitivamente, o Vale do Itajaí em paisagem teuto-brasileira. Visível e surpreendente, também pela sua estranheza, reconhece-se sua identidade específica, particularizando a microrregião com um estigma positivo de um saber-fazer habilidoso e criativo. A paisagem do Vale identifica-se pelo pontuar do enxaimel, desenhando o habitar dos espaços rurais, assim como os pequenos povoados que se alongam paralelamente aos rios. Onde quer que estejam, são objetos construídos que contrastam com as cores da paisagem e se mostram como pontos de referência cultural.
Descrição da tipologia físico-espacial
O processo de ocupação das zonas de imigração alemã conformou paisagens bem particulares, tanto rurais quanto urbanas, distintas daquelas mais recorrentes, encontradas em outras regiões brasileiras, em geral, de tradição portuguesa. As propriedades não foram espalhadas irregularmente, mas seguindo as linhas de penetração abertas nas matas que eram desbastadas, abrindo caminho ao povoamento. Partindo das margens dos rios são abertas trilhas, que se cruzam com aquelas que chegam das florestas e que, constituiriam as futuras vias principais e secundárias. Ao longo dessas vias são traçados, perpendicularmente, terrenos estreitos e compridos, repetindo o modelo de povoamento do final da Idade Média em algumas regiões que conformariam a Alemanha atual. (SILVA, 1954) Essas pequenas propriedades rurais tinham testadas relativamente exíguas, de no máximo 200 metros, dando para as estradas que, em geral, acompanhavam os vales fluviais. Esses lotes eram estreitos no ponto de partida, ao longo da estrada e dos rios, mas se estendiam numa longa faixa retangular para o fundo, muitas vezes até o divisor de águas.
Na Alemanha, este tipo de povoamento é conhecido como Waldhufendorf. Wald significa floresta e dorf, vila; hufen refere-se à faixa estreita e alongada de terra, distribuída aos colonos. (WAIBEL, 1979) (Fig. 1) O Waldhufendorf retratava, claramente, a concepção da ocupação, associando trabalho agrícola e organização urbana. (SEIFFERT, 1974) É este exatamente o tipo de povoamento e a distribuição da terra que eram usados no fim da Idade Média, nas áreas montanhosas do leste da Alemanha. (WAIBEL, 1979) A maior parte da imigração no Brasil é oriunda do norte, oeste e sul da Alemanha que adota, em Santa Catarina, a implantação do sistema Waldhufendorf. (WAIBEL, 1979) No norte e no sul da Alemanha, também são conhecidos parcelamentos desse tipo nas áreas rurais. (Fig. 2)
A paisagem rural das regiões catarinenses de imigração alemã seria marcada, então, pela presença generalizada das pequenas propriedades rurais, que tinham por base o trabalho familiar. Chama a atenção, até hoje, a densidade populacional do campo nestas áreas, em contraste marcante com as demais regiões brasileiras, em geral pouco povoadas, onde os latifúndios tornaram-se predominantes. Ao contrário da imensa maioria de seus congêneres dos países de origem, e mesmo das regiões de onde provieram, os imigrantes não habitaram, aqui, em vilarejos rurais e sim, residiam nas próprias colônias. No entanto, a necessidade de equipamentos de serviços, artesanais e comerciais fizeram surgir vilarejos, que pontuaram as linhas coloniais, com pequenos aglomerados, que se faziam notar de tempos em tempos. Eram diversas vilas dispersas, que cumpriam certas funções essenciais, apresentando a igreja e o cemitério adjacente, escola, vendas, algum artesanto ou manufatura, que compunham a unidade urbana, junto com o arruamento retilíneo de casas, dispostas em uma ou duas ruas. (WAIBEL, 1979) Este conjunto de elementos, parcelamento rural e pequenos vilarejos, organizados desta forma, agregava o traço cultural às paisagens naturais. Conformava, assim, a estruturação destas regiões rurais-urbanas típicas da imigração alemã.
Descrição geral da forma assumida pelo aglomerado urbano na área focalizada no verbete
No caso das cidades de origem alemã, o parcelamento rural do solo, que segue perpendicular aos recursos fluviais e às vias, faz-se acompanhar por algum tipo de nucleação que se desenvolve, geralmente, às margens dos rios. No entanto, esse tipo de urbanização não se assemelha à ocupação portuguesa, com sua praça central, cívica e religiosa, da qual se derivam as demais quadras, tendendo igualmente à regularidade e conformando o tabuleiro de xadrez tão comum a milhares de fundações urbanas brasileiras. As primeiras ruas traçadas adaptavam-se ao relevo, alterando relativamente a rigidez do plano do traçado em xadrez. (REIS FILHO, 2000) Na mesma desordem, porém, vê-se que foi objetivada a criação de blocos com quatro faces, não importando os morros a subir nem as baixadas a atravessar. (PELUSO JR., 1991) A centralidade, no entanto, é bastante acentuada na praça cívico-religiosa, cujo caráter principal é o de respeitar a proeminência da igreja, que ocupa lugar de destaque na paisagem.
A diferenciação entre cidades de origem luso-brasileira e aquelas de origem alemã, reside não apenas nos traçados estruturadores que as distinguem, como também na oposição entre a praça da igreja na tradição luso-brasileira e a rua comercial na tradição alemã. (Fig.3) As cidades teuto-brasileiras catarinenses não manifestavam a intenção de organizar o espaço em torno de uma praça de tendência retangular onde se situariam as edificações representativas dos poderes religiosos e do estado. O elemento gerador acabava por ser uma rua, que por força do desenvolvimento das atividades econômicas, era sempre a rua comercial, de onde partiam as transversais e as paralelas, sem preocupação com a regularidade nem com as dimensões das quadras, tampouco com o tabuleiro. As edificações das instituições se dispersam de maneira irregular, procurando, sobretudo para as igrejas – protestante e católica – proeminências oferecidas pelo relevo. (PIMENTA, L; PIMENTA, M., 2011)
Na ausência de um plano embasado em princípios urbanísticos, encontra-se um plano ditado pela experiência cultural da sociedade, isto é, pela tradição. Sem a determinação de princípios urbanísticos, são as condições geográficas do sítio e a cultura do grupo que criou a cidade, que orientam o arranjo do espaço urbano. “Tomando-se cidades de uma mesma cultura, pode julgar-se que as diversidades são atribuídas às diferenças geográficas, enquanto as semelhanças o são ao equipamento cultural comum”. (PELUSO JR., 1991, p. 356)
A forma urbana das cidades teuto-brasileiras em Santa Catarina apresenta singularidades que podem ser encontradas em vários assentamentos dos mais diversos tamanhos. Elas possuem uma série de características comuns, sem que, no entanto apresentem a mesma paisagem. Os sítios de implantação, as evoluções individualizadas, as transformações e alterações sofridas durantes os processos de modernização são fatores que interferiram na diferenciação dessas paisagens urbanas.
Nos agrupamentos de origem alemã predominou, portanto, a rua comercial, surgindo as quadras regulares quando o relevo permitisse, mas somente em trechos isolados, sem a preocupação de cobrir uma área em torno de determinado centro. O relevo exerceu, nestes últimos centros urbanos, influência tão forte quanto a própria rua comercial. (PELUSO JR., 1991)
A proeminência da rua-mercado, como fator gerador do espaço urbano, pode ser identificada nas origens da especificidade das formações urbanas alemãs da idade média. As cidades episcopais constituíram um dos pilares sobre os quais se assentaram os desenvolvimentos das cidades medievais (PIRENNE, 1973). O plano ideal de um monastério beneditino desenhado sobre seis peles de porco e conservado na biblioteca da abadia de Saint-Gal, do começo do século IX, retomava tudo o que era necessário à vida e ao funcionamento de um grande monastério deste gênero. Continha, já em forma embrionária, os diferentes tipos de construção que poderiam ser reencontrados, mais tarde, na cidade medieval: o corpo de alojamentos do castelo já presente na casa do padre superior, no hospital, no albergue – mas sobretudo, as casas de artesãos. Era a primeira vez que se manifestava, sobre um plano, a presença de uma camada de comerciantes, de um artesanato, ou seja, de uma camada social cuja existência mesma era a condição que tornava possível a formação das cidades. Pode-se, portanto, considerar sem hesitar este plano de abadia como o ponto de partida do urbanismo alemão: a partir de inspirações vindas da Antiguidade, uma fusão se consumou aqui entre a herança antiga e a vontade germânica. (GRUBER, 1985) Ressaltaria, portanto, a importância do mercado para a tradição urbanística alemã.
O processo mais intenso de ocupação das cidades de origem germânica concentrava-se, portanto, na sede da colônia, a Stadtplatz. (SILVA, 1950) Em 1858, a colônia Blumenau estava dividida em 6 zonas demarcadas e habitadas. A sede da colônia, Stadtplatz, compreendia 56 lotes urbanos de tamanhos variados, ”que se estendiam desde um pouco acima da foz do ribeirão Bom Retiro, pelas margens do Ribeirão Garcia acima até as proximidades da atual rua Progresso, e, pela margem direita do Itajaí-Açu até as proximidades da atual rua Namy Deeke”. (SILVA, 1972, p. 63) As terras marginais do rio Garcia eram vulgarmente conhecidas por Die Kolonie (“A colônia”), para distingui-las de Velhapast (“pasto da Velha”), como se designavam as lavouras e construções às margens do ribeirão da Velha, pertencentes ao Kolonieunternethmer (“empresário da colônia”), como o próprio Dr. Blumenau se intitulava. A Stadtplatz (“zona da cidade”), compreendia uma larga faixa de terra junto ao “Grande Rio”, entre a foz do ribeirão da Velha e o Morro do Aipim, e que, conforme revela o nome, reservou-se para a construção da futura cidade. (FOUQUET,1950, p.83)
Nas cidades vamos encontrar a especificidade dos traçados urbanos, com sua rua comercial, com as localizações típicas das igrejas em elevações ligeiramente apartadas dos eixos principais, com seus bairros originados pela absorção das antigas linhas coloniais rurais e das pequenas propriedades então desmembradas. O crescimento da cidade original projetou-se sobre a estrutura de pequenas propriedades rurais, incorporando as linhas de circulação ao sistema viário urbano, o que geraria uma forma particular de desdobramento do espaço urbano, marcando sua estrutura pelas formas oriundas das funções desempenhadas no passado. Os bairros vão se formando a partir de quadras e ruas que se condicionavam às formas herdadas do Waldhufendorf, ou seja, fortemente, marcados pelos antigos traçados rurais. (PIMENTA, 1996)
Este sistema de linearidades que foram se formando, ocorrendo em conformidade com os vales fluviais, é ainda mais acentuado pela formação histórica dos vilarejos que serviam de pequenos núcleos deste povoamento disperso com as moradias realizadas nas propriedades rurais. (SILVA, 1950) Estes vilarejos surgem a distâncias de oito ou 10 quilômetros, geralmente nos cruzamentos de estradas, e encontram-se até hoje espalhados por todas as regiões rurais de origem alemã, mesmo as mais antigas. Possuem uma igreja, cemitério, escola, algumas vendas e pequenos serviços. Também estes núcleos foram constituídos por formações lineares, com as edificações seguindo as estradas, caracterizando-se como Strassendörfer, “quando se considera sua projeção sobre o mapa”. (WAIBEL, 1979). Entretanto, a função desses vilarejos não é a de um Dorf ou vila européia, mas de uma pequena cidade. Os alemães, por isso, denominam estes povoados mais aglomerados Stadtplätze mesmo que consistam apenas de algumas casas”. As antigas Strassendörfer, situadas nas zonas mais próximas da cidade, são incorporadas pelo seu crescimento, mantendo, todavia a sua forma e fazendo integrar estas formas históricas de pequenos centros lineares rurais ao espaço urbano. (WAIBEL, 1979).
Outro elemento importante da definição da forma urbana das cidades teuto-brasileiras de Santa Catarina foi o processo de constituição e de distribuição dos lotes coloniais.
O processo de crescimento das cidades do Vale do Itajaí processa-se com o aprofundamento do espraiamento acompanhando os fundos dos vales dos rios, apesar da densificação das áreas centrais, que ocorre na maior parte das cidades mais importantes. As cidades avançam, também, sobre o parcelamento rural, agregando áreas coloniais. Essa assimilação reforça as linearidades do crescimento urbano, condicionado pela antiga estrutura parcelária.
Blumenau consolida-se, no decorrer do tempo, como o centro regional do Vale do Itajaí, mas outras cidades também se desenvolveram (como Brusque, Indaial, Gaspar), constituindo o que se convencionou chamar de Vale Europeu. (SC, 2020) A expansão industrial que se processa principalmente em Blumenau acrescenta, às fabricas centrais, outras ocupações mais dispersas, que organizam os bairros que se espalham pelas cotas mais baixas do relevo, às margens dos rios ou do sistema viário. Outras manufaturas, como de beneficiamento de produtos agrícolas, também se dispersam pelo Vale do Itajaí, como engenhos de farinha e de cachaça, das atafonas de fubá, olarias, cervejarias, fabricação de vinagre e de charutos, vieram juntar-se os primeiros estabelecimentos industriais nos ramos de curtume, metalurgia e no setor têxtil. (HERING,1950) A maior parte dos estabelecimentos fabris precederam à constituição de uma real aglomeração urbana. Alguns deles, nasceram associados à casa comercial e à residência familiar, como a Hering, em Blumenau, ou a Renaux em Brusque. Posteriormente, haveria a ruptura e separação entre local de produção e residência familiar, sendo que a força motriz das águas fluviais continuava sendo um condicionante maior da localização industrial. Algumas indústrias apareceram associadas à pequena produção agrícola e, por isso, dispersas pelo espaço local, como a Karsten criada em 1882, às margens do Rio do Testo. Estas fábricas pioneiras constituíram-se como força de atração, não somente em termos de criação de outras fábricas e da expansão da atividade têxtil, mas, também, como elementos de desenvolvimento das diversas estruturas urbanas. Muitos edifícios desses antigos estabelecimentos industriais ainda se encontram presentes na malha urbana, alguns em funcionamento. Eles foram, muitas vezes, geradores da formação dos bairros ou mesmo das cidades, espalhados entre os vales que se inserem nesse relevo acidentado.
A marca migratória está em toda parte, lembrando a transposição de uma memória e de um saber-fazer do país originário: na escolha do sítio urbano encrustado entre morros no vale dos rios; no traçado dos primeiros lotes rurais; na formação da sede; na rua comercial alongada e paralela ao rio (diferentemente da praça central portuguesa); na incorporação da estrutura retalhada ao desenvolvimento regional; ou na arquitetura enxaimel (BROOS, 2002). Esses são os traços visíveis da paisagem, mas, por trás dela, há relações sociais que foram tecidas silenciosamente e se apresentam na culinária, nas festas, nos encontros, na maneira de pensar o mundo. (PIMENTA, 1999) Ali se desenvolvia uma rica vida cultural e associativa – com a constituição de bandas e orquestras, clubes de caça e pescas, associações diversas – em aparente dissintonia com um ambiente considerado inóspito e pouco urbanizado. (PIMENTA, 1999; KILLIAN, 1950) Chega a surpreender o fato de que, junto com os imigrantes alemães, tenha se transportado todo um estilo de vida social, mesmo em um meio ainda selvagem e pouco desenvolvido culturalmente. Constituiu-se num verdadeiro transplante cultural, quando hábitos urbanos europeus passaram a ser implantados em uma estrutura rudimentar em uma área praticamente isolada de um território fragmentado, com conexões internas precárias. (PIMENTA, 1994) Muitas dessas tradições ainda se mantém, assim como soa peculiar, além da prática de danças e músicas folclóricas, a organização de associações, inclusive de bombeiros voluntários. (KILIAN, 1950)
Muitas dessas funcionalidades se traduziram em engenhosas construções enxaimel que se dispersaram pelo espaço urbano e regional. Apesar das linearidades ainda serem marcantes, as paisagens urbanas das maiores cidades, hoje, já não deixam entrever essa ocupação dos baixos relevos emoldurados pelos morros, o que ainda acontece nos meio rural e nas pequenas cidades. Nas cidades originárias da colonização alemã, três aspectos fundamentais foram definidores de sua forma urbana: o elemento gerador do plano do centro urbano, o processo de ocupação definidor das expansões urbanas e as características das edificações. Uma cidade se especifica pela escolha do sítio em que se instala e o plano gerado para a organização espacial. (PELUSO JR., 1991). Nesse traçado linear, assim como nas propriedades rurais, despontam as arquiteturas tipicamente teuto-brasileiras, fazendo identificar, claramente, o traço cultural predominante.
A conformação das ocupações no espaço regional em forma alongada, escorregando entre os vales e vias, continua sendo bastante evidenciada, apesar de certos pontos de concentração comercial e de serviços. Circula-se ao longo dos rios e, dali, pode-se observar as pequenas ou grandes nucleações, envolvidas por um parcelário bem retalhado de pequenas propriedades, muitas delas preservando ainda as pequenas produções locais e os saberes-fazeres tradicionais.
Descrição da arquitetura vernácula/popular predominante no aglomerado
Descrição das características das edificações
Arquitetura no Vale Itajaí
O enxaimel: história e expansão
A técnica do enxaimel remonta a tempos antigos, quando já era utilizada pelos etruscos no século VII A.C.. (MILLER, 2015) Embora a origem do termo enxaimel ainda esteja sendo muito debatida, a técnica empregada era bastante similar à atual. (HARRIS, 2008) Na época moderna, alguns registros assinalam sua utilização já no século XIV. (FR, 2024; JACKSON,1912). Contrariamente ao pensamento corrente, a técnica do enxaimel não é uma exclusividade da Alemanha, mas foi utilizada em diversos países europeus, entre eles, a Inglaterra, França, Suíça, Polônia. (BOSTENARU, 2004) Se no Brasil, pode-se identificar o enxaimel com a cultura alemã, isso não quer dizer, como se supõe usualmente, que esse tipo de construção fosse restrito ao território da Alemanha.
As definições de enxaimel ficam mais recorrentes a partir do século XVIII, como termo de carpintaria, entendido como fileira de colunas ou vigas de madeira, colocadas em paredes, formando sua estrutura. (TRÉVOUX, 1771; RICHELET, 1732: 357). O Dictionnaire raisonné d’architecture et des sciences et des arts qui s’y rattachent, já caracteriza, essa arquitetura, por uma composição de pequenos caibros de madeira em paredes ou divisórias, posteriormente preenchidos com terra, gesso e entulho, etc., coberto com argamassa ou gesso. (BOSC, 1877-1880, p, 482) Essa definição praticamente vigora até hoje, com alguns ajustes e precisões, dependendo das culturas ou regiões onde essas obras são realizadas.
No decorrer do século XX até os dias atuais, o enxaimel, é compreendido como processo de construção em que as paredes externas e internas são edificadas com molduras de madeira e os espaços entre os elementos estruturais são preenchidos com materiais diversos como tijolo, gesso, ou taipa. Tradicionalmente, um edifício em enxaimel era feito de madeiras de seção quadrada de carvalho unidas por encaixes, pinos/cavilhas e estacas de madeira; o esqueleto estrutural em forma de gaiola do edifício é frequentemente reforçado nos cantos com escoras. Este método de estrutura de madeira foi adaptado tanto para casas rurais baixas e irregulares quanto para edifícios de seis ou sete andares em cidades populosas. (BRITANNICA) O Enxaimel, Fachwerk (treliça ou estrutura na Alemanha) ou Half-timbered Frame (estrutura em madeira, em língua inglesa) é uma técnica construtiva que consiste em formar uma estrutura com peças em madeira nas formas horizontal, vertical e inclinada, com os espaçamentos preenchidos em diferentes materiais de vedação (tijolos, taipa, terra, etc.). O enxaimel caracteriza-se, pois, pela técnica construtiva. Tanto é assim que algumas definições atêm-se às partes visíveis dessa armadura em madeira, o que vem explicitar ainda mais a caracterização do arcabouço estrutural. (FR, 2024) Exemplos de enxaimel não faltam, ao menos, na Alemanha e na França. Na França, a residência à colombages refere-se diretamente à armação de madeira talhada, com tijolos expostos.
A técnica determina, totalmente, o desenho arquitetônico. Ela se impõe como estrutura geral e como desenho.
O enxaimel em Santa Catarina.
No Brasil, os alemães desenvolveram a técnica do enxaimel, principalmente, no Espírito Santo, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. O Vale do Itajaí, em Santa Catarina, vai caracterizar a maior concentração de arquitetura enxaimel, permitindo identificar a cultura alemã, marcada na paisagem, nas colônias rurais e em alguns centros urbanos.
Os alemães que vieram para o Brasil optavam pelo enxaimel, porque dominavam a técnica construtiva e podiam encontrar materiais locais e abundantes (madeira e barro), enquanto mantinham sua identidade cultural. As construções eram robustas e confortáveis, utilizavam materiais comuns, porém as casas não eram baratas. Muitos colonos só conseguiam ter a sua casa em enxaimel depois que negociavam, com o carpinteiro, boa parte das madeiras da propriedade. Outros conseguiam pagar pela casa, graças ao seu progresso na colônia. (PIMENTA et al., 2012)
Quando chegavam da Alemanha, as habitações dos imigrantes passavam por três fases diferentes, acompanhando a capacidade de aprimoramento construtivo. Inicialmente eram construídas casas com troncos roliços de palmito, bastante abundante na mata nativa, sendo a cobertura feita com outra espécie de palmácea. O piso era de chão batido. (PMI, 2012) Nessa primeira fase, na mata virgem, nas imediações da água, encontravam-se o barracão e a moradia do colono, em geral, de aproximadamente 20 m2, com dois ou três cômodos. Na entrada, havia a cozinha e sala de estar. Logo após, separados por madeira, os quartos que eram, ao mesmo tempo, dispensa. A casa de tábuas, serradas ou rachadas a machado, tinha planta retangular ou quadrada, chão batido e quatro mourões que sustentavam o telhado. Às vezes, procedia-se a um acréscimo de 2 ou 3 mourões para sustentar a cumieira. Havia aberturas sem vidraças para ventilação, que podiam ser fechadas. (WILLEMS, 1946)
Poucos anos depois, a cabana primitiva cedia lugar a uma moradia mais confortável, feita ainda em madeira. Essas edificações já apareciam com técnica do Fachwerk (enxaimel), com a maioria das peças de madeira ainda falquejadas a machado, os esteios serrados à mão, ou também falquejados. As casas enxaimel eram fabricadas pelos carpinteiros e os moradores ajudavam na montagem. No preenchimento das estruturas, utilizava-se mistura de barro, capim e estrume de gado, sustentado por uma treliça de madeira falquejada, presa entre os módulos do esqueleto. As janelas eram simples, com duas folhas de tábuas. Raramente as janelas são envidraçadas. (PIMENTA et al., 2012 ) Erigida sobre pilares para evitar os animais daninhos, possuía agora o chão assoalhado, numa superfície que variava entre 30 e 40m2. No andar térreo, havia a sala de estar e um ou dois quartos. O sótão poderia ser usado como celeiro ou dormitório. (WILLEMS, 1946)
Nas colônias mais antigas, surge, como terceira fase, a casa de tijolos frequentemente com madeiramento à mostra. É o enxaimel propriamente dito. Nos traços mais importantes da organização da estrutura do imóvel é bastante similar à casa anterior de madeira. Anteriormente, por fatores de segurança contra incêndio, e pelo fato da ausência de chaminés, a cozinha era separada por um corredor ao longo da fachada lateral da casa. O aparecimento das chapas de ferro fundido permite a confecção de chaminés, tornando a cozinha mais segura, que então pode ser incorporada ao corpo da casa. Nessa terceira fase, muitas vezes, o telhado se alonga para trás, cobrindo, com a diminuição da declividade, uma área maior, utilizada geralmente como cozinha e, talvez, como quarto, em famílias muito numerosas. Agora, nesta fase, quase toda a madeira utilizada já é cortada por engenhos com serras movidas com rodas d’água, com exceção das peças muito grandes, de difícil transporte, que continuavam sendo falquejadas. (PIMENTA et al., 2012) Adaptando-se às condições climáticas locais e visando reduzir o efeito da insolação no teto, elevava-se o pé direito (acima de 2,5m). Devido às altas temperaturas, o sótão deixaria de ser utilizado como quarto, e serviria somente como depósito. Na Alemanha, devido ao clima muito frio e à necessidade de armazenar calor, o estábulo era localizado junto à casa, e até mesmo sob o piso da parte residencial. Nosso clima subtropical forçou à dissociação entre casa e estábulo, que se tornaram construções independentes. (PMI, 2021)
Os três tipos de construções representavam, ao mesmo tempo, três estágios de colonização. Podiam ainda ser observadas, em meados da década de 1940, pelas características das construções, as diferentes etapas da ocupação local. Em zonas de imigração mais antigas e contínuas (como em Blumenau, por exemplo) já predominava a casa em tijolo. Nas áreas intermediárias, encontravam-se as casas de tábuas serradas e, nas mais recentes, ainda preponderavam as cabanas provisórias, feitas de palmitos ou outro material que o local oferecesse. A paisagem ia se transformando com o desenvolvimento dos processos construtivos. (WILLEMS, 1946)
Não há passagem direta de um tipo de construção para outra, como substituição de um imóvel por outro. As casas das três fases continuam, muitas vezes, lado a lado. O que se verifica é a manutenção das construções anteriores, com a reorganização de funções. Quando o colono substitui a cabana primitiva pela casa de madeira, aquela é transformada em cozinha. Construída a casa de tijolos, a antiga moradia passa a ser cozinha e a cabana é usada como paiol. (WEIMER, 1983) Entretanto, existem zonas em que a casa de tábuas permanece a habitação definitiva. Verifica-se, ainda, no Vale do Itajaí, a existência de conjuntos construídos desse tipo, principalmente em áreas rurais.
As construções enxaimel
As formas de se construir evoluíam, acompanhando as transformações técnicas e a oferta de energia. A tração animal foi substituída pela energia hidráulica fornecida pelos ribeirões e a combustão feita com a queima da madeira nativa local. A madeira falqueada seria substituída gradativamente, devido à introdução de serrarias, movidas pelas rodas d’água. Isso permitiria o emprego de medidas-padrão, conforme os hábitos usuais. O canteiro de obras pode ser, assim, simplificado, destinado somente à montagem dos elementos já previamente cortados, numa espécie de pré-fabricação precoce.
A técnica enxaimel consiste, basicamente, na construção de estruturas de madeira sem utilizar prego ou parafuso, apenas com encaixes na própria madeira. O sistema de entravamento garante a estabilidade estrutural, com travas em estruturas verticais, horizontais ou diagonais, formando triangulação. Conforma-se como uma técnica extremamente complexa e com normas bastante rígidas. Pregos e parafusos não podem ser usados. Toda a estrutura é encaixada. Os exemplares mais antigos da arquitetura enxaimel mostram a estrutura cortada à mão com machado ou serrada com um serrote traçador. (PIMENTA et al., 2012) Antigamente era só no enxó, machadinha. Atualmente, para fazer os encaixes, as duas laterais, o mestre restaurador já corta com a makita, a serra elétrica, e mesmo para fazer a espiga, também já está sendo utilizada a serra elétrica, diminuindo o tempo de trabalho de forma expressiva. A betoneira substituiu o cocho e a enxada. Antes se usava cal virgem, e agora cal mais fraca, cal hidratada, com pouco de cimento, para não aparecer. (PIMENTA et ali., 2010) Todo o processo construtivo tornou-se mais ágil com o decorrer do progresso nos equipamentos.
A utilização da matéria-prima local, como elemento construtivo ou como fonte de energia, foi definida desde o inicio da colonização, já que o colono importou a técnica, mas não o material. Antigamente a principal matéria-prima utilizada nas construções (não somente em construções, mas devido à abundância chegava a ser utilizada até como lenha) era a canela preta nativa e o palmito. De uma forma geral, a canela preta era utilizada nas estruturas das edificações e o palmito era utilizado para fechamentos (casa de taipa) e no forro da cobertura (estuque) das construções.
Ainda se encontram, atualmente, árvores de canela (inclusive a canela preta), em menor escala e protegidas. Muito palmito ainda pode ser obtido nas localidades mais retiradas (Rio dos Cedros, por exemplo). Um fato marcante é a utilização de muita palmeira nos jardins e nos quintais das residências, elemento constante na paisagem urbana de algumas cidades menores. Além de palmeiras, são utilizados também palmitos, esbeltos e altos, que fazem a marcação vertical em diversos pontos dessas cidades. Em alguns casos, fileiras de palmeiras, palmitos ou os dois elementos juntos (bananeiras também se misturam e compõem a paisagem em alguns locais) fazem inclusive a demarcação de terrenos, como limites de vizinhança em terrenos com ou sem divisão de muros (a marcação é feita pela verticalidade da vegetação). (PIMENTA et al., 2012)
As armações formadas de madeira travadas, horizontais, verticais e oblíquas, comportavam-se como estruturas independentes e podiam ser montadas em cima de pedras, organizadas como fundação e vedadas com materiais diversos.
Alguns exemplares conformavam paredes de taipa, preenchidas por barro e elementos orgânicos ou ripamento de palmito com barro e cal, por exemplo, em vez de tijolos como preenchimento. Antigamente, a argamassa era feita, adicionando pêlo de animal, o que é difícil de se conseguir hoje em dia, por isso às vezes o capim é misturado à massa, em situações de restauro. (PIMENTA et ali., 2010) Posteriormente, os vãos entre o madeiramento eram finalizados por tijolos feitos à mão, em olarias locais que produziam, também, as telhas chatas. As serrarias, seguidas do fabrico de tijolos e telhas em cerâmica, também conformavam a paisagem regional e foram responsáveis por processos de acumulação regionais importantes. Ainda podem ser encontradas regionalmente, com diferentes níveis de mecanização, mas, em geral, bastante rudimentares.
A casa enxaimel era, normalmente composta por esse sistema estrutural, bastante evidente e característico, coberta por telhas planas, distribuídas em telhados de duas águas, com uma das águas, voltando-se para a rua. Assim, a parede frontal se alonga junto com a rua, mostrando sua porta principal e as janelas de duas folhas, que se estendem pela fachada. As primeiras casas tinham aberturas de madeira, mais tarde surgiram casas com aberturas com vidros de pequeno tamanho.
Muitas vezes, para aceder à porta principal, sobe-se alguns degraus, já que a estrutura fica elevada sobre apoio, também variável (como a casa Hoerning, no bairro Itoupava, em Blumenau; casa Lemke em Pomerode). Às vezes, a casa repousa sobre pilares de pedras empilhadas ou tijolos, formando vãos de isolamento em relação ao solo (exemplo da casa do Professor em Timbó). Outras vezes, esses vãos são fechados com tijolos, vazados ou não (residência Gilson Glau, em Pomerode e casa Koepsel, em Timbó). Existem as casas com porão, em geral, quando associam residência e venda (casa da família Garni, em Blumenau, por exemplo). O porão elevado pode também ser aproveitamento da declividade do terreno (exemplo da casa Hoerning, no bairro Itoupava, em Blumenau). Há, também, alguns exemplares sem a construção de porões.
Em algumas construções, o telhado, além do prolongamento traseiro para abrigar a cozinha, estende-se para a frente, cobrindo a varanda. Em todos os alongamentos dos telhados, as inclinações variam, em geral se abrandam, em relação ao telhado principal de duas águas (p. ex., o Museu do Imigrante e casa Lunghard, em Pomerode).
Outra característica que distingue a arquitetura teuto-brasileira dos exemplares alemães é a presença de desenhos efetuados com os tijolos, quer seja como vergas, acabamentos nos arcos das varandas (casa do Imigrante em Pomerode) ou pedaços de paredes trabalhados (p. ex., casa Siewert em Pomerode, casa Duwe em Indaial, por exemplo).
Na Alemanha rural, as características arquitetônicas são claramente regionalizadas ou
até mesmo locais. Aqui, as variações são muito menos acentuadas. Sempre é possível verificar certos traços predominantes, já que a grande maioria dos imigrantes procedia de algumas regiões específicas. Mesmo assim, há adaptações locais como, por exemplo, a inserção de varandas ou dos porões, que não podem ser encontradas na Alemanha. Casas de madeira são raríssimas. A cozinha separada, a varanda e as janelas sem vidro também estão ausentes na arquitetura rural germânica. (WILLEMS, 1946) Em Santa Catarina, existem exemplares de arquitetura enxaimel com tijolos trabalhados, construídos principalmente, em períodos já caracterizados pela ascensão social dos colonos. A adaptação às condições e materiais locais, assim como uma inserção criativa deram à arquitetura trazida pelos imigrantes, um tom específico e singular. A forma inclinada e desenhada dos telhados e a estrutura de entravamento que caracteriza o enxaimel são elementos trazidos pelos colonos e retratam, claramente, o traço cultural dos imigrantes, impresso na paisagem local. Pode-se identificar certa homogeneidade da paisagem do enxaimel, composta pela estranheza em relação às demais regiões do país, onde essa estrutura entrelaçada de madeira exposta fica preenchida de tijolos aparentes, se encaixando entre telhados inclinados que abrigam portas e janelas, muitas vezes, avarandadas.
O Vale do Itajaí, no Estado de Santa Catarina, tem a maior concentração de construções em enxaimel, desempenhando uma grande variedade de funções. Os municípios de Indaial, Blumenau, Timbó e Pomerode, entre outros, apresentam desde casas, igrejas, comércios, serviços e até clubes de tiro em enxaimel, caracterizando uma arquitetura teuto-brasileira, combinando traços culturais do país de origem com a adaptação criativa no ambiente receptivo regional.
Tipologia Arquitetônica
O enxaimel mais comum consiste em construção coberta por telhado de duas águas, que recebe, primeiramente, um alongamento na parte posterior, para abrigar a cozinha. Nessa inserção, já se quebra a simetria do telhado, que será alterada, posteriormente, também, pelo prolongamento frontal. (ROCHE, 1969) A outra vertente do telhado, inclinando-se em direção à parte anterior do imóvel, introduz a varanda que ocupa toda a extensão da fachada frontal. Somente o alongamento desigual do telhado em ambos os sentidos, é que permite incluir os anexos posterior e frontal, cozinha e varanda, quando se trata do enxaimel mais tradicional. A Casa do Imigrante, em Pomerode, apresenta um exemplar típico dessa arquitetura, com varanda de guarda-corpo baixo em toda a área frontal. Algumas peculiaridades, no entanto, se acrescentam, em termos de desenhos e ornamentos. Em alguns casos, o guarda-corpo é trabalhado, como na casa Ristow (Indaial) ou na casa Bruno Flohr, com tijolos dispostos de forma diagonal e com intervalos vazados, formando um desenho treliçado. Em outras situações, a treliça de madeira compõe o guarda-corpo da varanda, como na casa Duwe. Algumas construções apresentam, também, tijolos formando desenhos, sobretudo na fachada frontal, inserida nas varandas (casa Rux em Jaraguá do Sul, casa Siewert e casa Radunz em Pomerode). Em outras ocasiões, são as paredes externas que recebem os desenhos nos tijolos, como na Casa Ewald, em Indaial, onde as empenas laterais exibem uma composição losangular de diversas dimensões, que pode ser avistada à distância.
A varanda, que normalmente abrange toda a fachada da casa, em alguns casos cede lugar à meia-varanda, como na casa Radoll Invalt em Timbó, com abertura lateral em arco pleno e colunas na parte frontal. Em outros exemplos um pouco diferentes, a varanda termina antecipadamente, mas pelo encontro com algum cômodo da casa, que se estende até o alinhamento do telhado frontal. Tal é o caso de casa Bruno Flohr, em Blumenau e da casa Lemke ou Hornburg, em Pomerode. (Fig. 1) Até aqui, não há alteração substancial da relação entre corpo da construção e sentido do telhado, com caimento sobre a varanda ou a meia-varanda. A varanda frontal fica somente diminuída, sem preencher a totalidade da fachada, ou pelo encontro de um cômodo que avança até a linha do telhado.
Já no imóvel da família Hardt, em Pomerode, a varanda circunda a casa, ocupando, além da parte frontal, a lateral que se coloca sob a empena que sobe entre os caimentos do telhado de duas águas. Aqui, a varanda também acaba sendo interrompida pelo encontro de um cômodo, que avança até o alinhamento da projeção do telhado. São variações que já começam a alterar a volumetria da casa, quando a varanda avança em sentido contrário à cumeeira. Até então, ela era só prolongamento frontal do telhado. Agora, é colocada também na empena lateral que fica entre as duas águas do telhado, confundindo um pouco a entrada da casa, em relação à forma anterior. (Fig. 2)
Algumas residências alteraram ainda mais a volumetria padrão, com a mudança de orientação de parte da construção e do telhado. Na casa Osni Rifel, em Pomerode, por exemplo, ao telhado de duas águas, acrescenta-se, na parte posterior, um prolongamento com a inversão do caimento das águas e da cumeeira. Não é a declividade que se alonga, mas se encaixa um outro telhado de duas águas, perpendicular ao antigo. Outro caso acontece em Testo Alto (residência Wily Zumach), quando a parte frontal da casa, com cumeeira paralela à rua, recebe um alongamento lateral, que inverte o sentido das águas do telhado. A parede da fachada tradicional recebe, então, a varanda. Em ambos os casos, são dois volumes que se fundem. No primeiro caso, no sentido posterior da casa e, no segundo caso, na lateral da casa, com a varanda permanecendo na construção que possui a cumeeira paralela à rua. Há, então, a ruptura do telhado único principal, com ou sem alongamentos ou anexos.
Uma outra tipologia que age nesse sentido é a planta que forma um “L”, com criação de uma parede lateral, recuada em relação à parede frontal, que rompe, radicalmente, a continuidade e o alinhamento do telhado. A visão geral também se altera, porque janelas não aparecem somente na parede frontal, mas também nas duas paredes em ângulo, que articulam os telhados perpendiculares. O volume único sob um telhado de duas águas, foi substituído, agora, por dois volumes construídos, sendo um deles recuado do lado direito, articulando dois telhados em ângulo perpendicular, como na casa Koepsel, no centro de Timbó. A estrutura do enxaimel continua presente, assim como o alongamento posterior do telhado com cumeeira paralela à rua, no sentido de abrigar a cozinha. No entanto, a casa compõe-se de dois corpos importantes, articulados entre telhados perpendiculares.
Com o decorrer do tempo, são atestadas mudanças mais substantivas. Águas-furtadas são construídas em inclinações mais acentuadas dos telhados, aumentando a quantidade de aberturas e o espaço dos cômodos superiores. Podem ser lembradas, como exemplo, a Casa Duwe ou a Casa Warnow, ambas em Indaial. (Fig. 3) Essa última ainda altera a volumetria geral, com o acréscimo de adendo lateral de menor altura. Tanto a casa Warnow como o casarão Stoltenberg acrescentam, ainda, uma varanda superior, na própria projeção da água-furtada. A casa Stoltenberg fica elevada do solo, com porão alto e escadas laterais externas, o que era mais comum de estar presente na casa-venda. Em geral, as casas tinham pouco distanciamento do solo. As paredes se apoiavam diretamente nas fundações, que eram compostas de pedras empilhadas ou totalmente vedadas. Poucos degraus davam acesso diretamente à sala ou à varanda.
A existência dessas variações não negam a predominância dos traços construtivos e decorativos mais tradicionais da arquitetura enxaimel, porque são exceções dentro de um amplo espectro de imóveis bastante similares.
Ameaças à continuidade do(s) tipo(s) identificado(s)
Condizente com o restante do país, sempre há risco de desaparecimento dos bens patrimoniais, principalmente, nas grandes cidades, quando o preço do solo se eleva e existe pressão para a substituição dos imóveis por uma ocupação mais intensiva do solo.
O custo de manutenção do estado de conservação das construções também interfere, desfavoravelmente, para a proteção dos bens de valor patrimonial, quando, de fato, não há uma política de subsídios constantes para a preservação dos imóveis.
A moção no 032/2023, de 11 de julho de 2023, feita pela Câmara de Vereadores de Indaial assinala, claramente, como o patrimônio vem sendo negligenciado, mesmo em imóveis tombados. Os vereadores constatam “a ausência de manutenção e zelo adequados. Muitos deles apresentam rachaduras, vidros quebrados e encontram-se em péssimo estado de conservação. Não recebem manutenção periódica, tampouco o cuidado necessário à estrutura.” Reconhecem as dificuldades que encontram os proprietários, devido à “ausência de verba para manter o bem conservado estruturalmente”. E finalizam: “É imprescindível que sejam realizadas ações de manutenção, restauração e valorização dos patrimônios históricos tombados, a fim de preservar a identidade cultural e a memória histórica.” Creio que esse documento, realizado no próprio lugar da vivência cotidiana, retrata uma realidade que é enfrentada em praticamente todo o país. No Vale do Itajaí, especificamente, consiste em ameaça ao patrimônio herdado e, em particular, aos imóveis da imigração alemã, tal qual o enxaimel.
Existe algum tipo de acautelamento, como patrimônio cultural material, imaterial ou natural relacionados a este verbete? *
Os imóveis do Vale do Itajaí foram objeto de um primoroso levantamento realizado pela FCC (Fundação Catarinense de Cultura), que resultou em tombamento de grande número de exemplares, sobretudo até o ano 2000. Alguns desses imóveis foram, posteriormente, também tombados pelo IPHAN, outros pelas prefeituras municipais.
Cabe ressaltar que o governo do Estado de Santa Catarina, com as Associações de Municípios e as Prefeituras Municipais, se engajaram num planejamento turístico regional, caracterizando a área como Vale Europeu, que inclui, em seu roteiro, muitos imóveis patrimoniais, rurais e urbanos. O fato de promover o desenvolvimento econômico da área, associando à valorização do patrimônio dos imigrantes europeus, pode constituir uma medida efetiva de preservação patrimonial.
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