HABITAT AMAZÔNICO (Barcarena-Pará)
Habitação ribeirinha localizada no Furo Grande, na Ilha das Onças, Município de Barcarena, Pará, construída pelo proprietário e nativo da Região, a família é composta por casal e dois filhos. O pai é carpinteiro, a mãe dona de casa e um dos filhos atualmente trabalha na capital paraense.
Aspectos históricos, sociais, econômicos, culturais e geográficos relacionados à arquitetura vernácula
A habitação ribeirinha está localizada na Ilha das Onças no Município de Barcarena, fica a oeste da cidade de Belém com acesso pela Baia do Guajará (IBGE, 2017). A Ilha da Onças é atravessada por rios navegáveis, conhecidos como “furos”, dentre eles o Furo Grande. Devido à proximidade entre a entrada do furo e a cidade de Belém, há 20 minutos de barco, seus moradores estabeleceram uma relação mais estreita com a capital paraense do que com o núcleo urbano de Barcarena.
O exemplar de habitação ribeirinha no Furo Grande, apresenta uma importante referência de acesso, a “Uzina Vitória”, hoje em ruínas. Localiza-se no encontro entre o Furo Grande e a Baia do Guajará, em seu período de funcionamento, 1930-1975, desempenhou um importante papel para economia local como fornecedor de matéria prima ao exterior além de oferecer emprego para imigrantes nordestinos, um projeto integracionista no Governo de Getúlio Vargas.
Como outras comunidades ribeirinhas tradicionais na Amazônia, em Furo Grande, a ocupação do território envolve a convivência com terrenos alagados e alagáveis grande parte do ano, repercutindo em construções adequadas ao fluxo das marés altas e baixas. Portanto, as moradias são culturalmente adaptadas à vida na floresta, um cotidiano correspondente às condições ambientais da Amazônia.
No contexto ambiental da enchente e da vazante dos rios, as casas ficam “ilhadas”, só sendo possível a locomoção por embarcações. Esse conhecimento ancestral e experiência no cotidiano, orienta as pessoas dessas regiões quanto a construção das suas casas, estando elas e os passeios que as conectam executados acima do nível mais alto da água, devido essa população “compreender as características e as temporalidades das suas paisagens (Stoll et al., 2019).
As edificações encontradas nessa comunidade são construídas em
palafitas de madeira, em um nível de implantação que tem em consideração a sua
permanência em um “ecossistema de várzea” (Castro, 2019). Para acessos às
edificações e traslados a pé na comunidade, os moradores constroem “estivas” que são caminhos em madeira, suspensos por estacas de mesmo material, que interligam algumas casas e dão acesso às margens do rio (Sarmento, 2024).
Época de construção/Transformações
DATA: A casa manifesta a tradição ancestral da comunidade local, considerando que o projeto original foi apresentado pelo INCRA (Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária) entre 2009 e 2012, a partir daí ocorreram transformações de modo paulatino tanto no partido quanto nos detalhes.
Caracterização da arquitetura e das técnicas construtivas
Inserção na Paisagem
Analisar as relações estabelecidas entre as edificações e conjuntos edificados com a paisagem em que se encontram inseridos, quer seja urbana ou rural, destacando-se os aspectos que se sobressaem na configuração do cenário visualizado, quer sejam de ordem natural ou antrópica.
Implantação no espaço/lote
O lote não apresenta uma delimitação explícita, assim sendo, a edificação é circundada pela floresta e pelo rio, em terreno de várzea sujeito ao fluxo das marés, com áreas verdes em torno da casa, jardim, quintal com vegetação de grande e de médio porte.
Como já mencionado, são edificações alongadas de pequeno porte, em alguns casos compostas por um conjunto de edificações composto por áreas cobertas e sem vedações, na frente são os denominados trapiches, e nos fundos cozinhas que se mantêm frente à visualidade da floresta.
Fachada, vãos e esquadrias
A residência apresenta uma grande variedade de cores e detalhes, uma vez que o proprietário é carpinteiro, que a torna um exemplar bastante característico da vida familiar complementando os elementos construtivos variados e muito criativos. A fachada frontal apresenta uma solução de cobertura de grande valor bioclimático com aberturas entre planos de cobertura, aliado a isso, os detalhes em madeira com ripas em uma malha ortogonal dispostas de maneira a proteger sem bloquear a ventilação em todo pé direito do ambiente frontal da casa. A fachada lateral é composta por um alongado avarandado que liga o pátio frontal à cozinha aos fundos, portanto a circulação é linear e totalmente aberta. Também com detalhes em madeira com diferentes tipos para cada função de uso na casa: sustentação, cobertura, elementos decorativos, etc. Existe um padrão bem estabelecido do uso da madeira para valorização da cultura ribeirinha da Amazônia, associando a fauna, a flora, as cores do ambiente amazônico: laranja, marrom, verde, etc.
Planta e agenciamento interno
A edificação é composta por uma parte central, com a distribuição dos dormitórios ao redor de uma grande sala, sendo esse conjunto ligado lateralmente a um avarandado alongado e frontalmente a um pátio que também funciona como um ambiente de estar. O acesso a cozinha se dá pelo pátio lateral, que se localiza aos fundos da casa, é bem equipada, com fogão, geladeira, uma pia no interior da cozinha, diferente das demais casas que muitas vezes ainda usam jiraus, o que ocorre também pelos serviços prestados aos turistas locais, nacionais e internacionais que frequentam a residência.
Sistema construtivo, materiais e estado de conservação
Como já foi mencionado anteriormente, a casa manifesta a tradição ancestral da comunidade local, considerando que o projeto original foi apresentado pelo INCRA (Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária) entre 2009 e 2012, a partir daí ocorreram transformações de modo paulatino tanto no partido quanto nos detalhes. As madeiras das estacas e barrotes eram acapu, os esteios, volumes 10×10, angelim, frechal de angelim, pernamanca de cupiúba, vigas de araracanga, tábuas do assoalho, araracanga, tábuas de parede escamadas de guaruba, ripas de araracanga, tudo madeira de mato, de boa qualidade, segundo o proprietário da residência. Todo o sistema construtivo envolve procedimentos tradicionais. A edificação vem sendo beneficiada por tecnologia social a partir de uma expedição de pesquisa coordenada por docente da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), envolvendo acesso à potabilidade da água garantindo o acesso a agua potável a partir da captação da água da chuva, e do Banheiro Ecológico Ribeirinho, que se trata de um banheiro seco, para tratamento do esgoto como investimento na diminuição da contaminação dos solos e das águas na Região.
Significados atribuídos aos espaços e elementos arquitetônicos
A atribuição de significado aos espaços é a tônica das modificações realizadas pelo proprietário na casa original beneficiada pelo INCRA. Cada ampliação, cada reforma realizada, cada detalhe de um amplo conjunto de criação feita pelo proprietário caracterizam-se ações para manifestação de um modo particular de morar na Amazônia, transformando fisicamente o projeto original. Pelo fato do proprietário ser marceneiro, permitiu uma rica manifestação de arte e arquitetura produzido por não arquiteto, uma vez que, essa riqueza de detalhes é justificada minuciosamente pelo proprietário no tempo e no espaço. As paredes, os pisos, a cobertura, e tantos variados elementos decorativos demonstram a vida ribeirinha na Amazônia.
Tipologia (se houver possibilidade de identificação)
Denominação técnica e popular do tipo
Trata-se de um exemplar característico e refinado do habitat amazônico, tipologia em palafita, partido arquitetônico alongado, com grande visibilidade da cobertura, com suas aberturas e beirais prolongados emoldurando varandas frontal e lateral, que estabelece a relação interior-exterior tão singular para os povos da floresta. Casa térrea, com cozinha aos fundos, amplos avarandados que no sistema de relações estabelecido caracterizam os espaços de maior permanência e de uso prolongado dos residentes. A proposta de soluções espaciais que evidenciam a relação entre interior e exterior são sempre bem vindas.
Os arranjos espaciais na Amazônia, especialmente nas áreas afastadas dos grandes centros urbanos, caracterizam-se por baixa densidade com entorno natural abundante, florestas e rios, onde o ambiente construído não causa impacto significativo ao meio ambiente. As edificações tradicionalmente são de baixo porte, com tipologias em palafitas, com pouca variação do tipo palafita amazônico (Menezes, 2015; Perdigão, 2016).
Ameaças à continuidade do tipo
Nos últimos 10 anos, mais sistematicamente, o risco na mudança de um padrão de morar ribeirinho vem se estabelecendo na região insular do município de Belém. O turismo predatório e a irresponsabilidade ambiental oferecem sérios riscos para a continuidade do habitat ribeirinho (saudável) na Amazônia. Também é preciso citar os efeitos das intempéries à madeira, um material amplamente utilizado em comunidades ribeirinhas. Isso, aliado a carência de manutenção de serviços e produtos relacionados a madeira pelo Poder Público, resulta em vulnerabilidades para o uso e deslocamento nos espaços construídos com madeira. Desse modo, as comunidades têm, inadvertidamente, sem assistência técnica, substituído o uso da madeira pelo concreto armado e alvenaria. Com isso, pondera-se em que medida as soluções construtivas com maior vida útil impactam na identidade e no modo de morar amazônico.
Existe algum tipo de acautelamento, como patrimônio cultural material, imaterial ou natural relacionados a este verbete?
Não existe.