Moradia de tijolo cerâmico e telhas de fibrocimento
Moradia em ocupação urbana de área particular nos fundos do Cemitério Municipal da cidade de Carolina, Maranhão, construída em seis meses através de mutirão familiar, onde vivem casal — o marido pescador, a esposa lavadeira —, dois filhos menores e um irmão da dona da casa que trabalha como ajudante de pedreiro.
Aspectos históricos, sociais, econômicos, culturais e geográficos relacionados à arquitetura vernácula
A ocupação ou invasão de terras urbanas, públicas ou privadas para fins habitacionais é prática histórica comum na urbanização brasileira e um procedimento que resultou nas favelas, vilas e mocambos consolidados nas grandes cidades do país. Sendo um processo com sucesso incerto, as práticas dos ocupantes costumam adotar a cautela no momento inicial, dada a possibilidade de ações legais de desocupação ocorrerem, o que explica a prudência nos investimentos iniciais relativos à construção das moradias. Levantadas de forma expedita com palha ou taipa de mão, os casebres marcam o território coletivo e as áreas particulares, à espera de uma definição quanto à permanência no local. Desta forma, a moradia construída na ocupação que, à época do cadastro, nem sequer tinha um nome e está localizada nos fundos do Cemitério Municipal Campo da Saudade, na sede municipal de Carolina, no sul do Maranhão, surpreende pela decisão de seus moradores em despender recursos e executar a obra utilizando materiais durável e custosos.
Época de construção/Transformações
DATA: 2018
Caracterização da arquitetura e das técnicas construtivas
Inserção na Paisagem
Analisar as relações estabelecidas entre as edificações e conjuntos edificados com a paisagem em que se encontram inseridos, quer seja urbana ou rural, destacando-se os aspectos que se sobressaem na configuração do cenário visualizado, quer sejam de ordem natural ou antrópica.
Implantação no espaço/lote
Implantada na parte posterior do lote compartilhado pelas duas irmãs, a moradia tem acesso pela lateral do terreno, deixado livre pela dimensão mais estreita da construção à sua frente. Neste trajeto de acesso foi implantada a entrada social da casa, realizada através de varanda lateral localizada na área mais baixa da cobertura que, em três planos, aumenta em altura em direção à lateral oposta onde alcança cerca de seis metros.
Apesar das diferentes texturas e cores dos materiais de parede e telhado, a volumetria da edificação — um cubo truncado por um plano diagonal transversal à sua fachada principal — se apresenta com uma forte unidade, onde os panos de vedação vertical e horizontal se articulam harmonicamente.
Fachada, vãos e esquadrias
Ainda sem reboco e pintura, portanto, com a alvenaria no osso, as fachadas deixam à mostra os pilares de concreto, modulados conforme as diferentes alturas da cobertura e os vãos das esquadrias das janelas de correr, em chapa de ferro, que também se instalam no centro dos panos de tijolos. A varanda, que ocupa o canto esquerdo, abre-se para as fachadas frontal e lateral com dois pilares de madeira de seção quadrada.
Planta e agenciamento interno
Através da varanda, na extremidade esquerda da construção, chega-se ao espaço integrado que reúne sala de estar, copa e cozinha e que ocupa toda a extensão do módulo central da moradia. Funcionando como circulação, este ambiente dá acesso aos três dormitórios, um deles nos fundos da varanda, os outros dois agrupados ao longo do módulo da direita, com o banheiro entre eles. Desta forma, correspondendo à simplicidade volumétrica da edificação, sua planimetria mantém o padrão rural, com o setor social na parte frontal da edificação e os serviços nos fundos, com acesso ao quintal.
Bens móveis e integrados e/ou mobiliário
No terraço e na sala de estar predominam poltronas com estrutura de ferro e fios de plástico conhecidos como macarrão. Na copa-cozinha, mesa com tampo de granito, cadeira de ferro, bancada com tampo do mesmo material da mesa da copa e cuba de inox, geladeira e fogão a gás. Na área de serviço, tanque de granilite e o “tanquinho”, máquina de lavar roupa sem centrifugação. Nos dormitórios, camas, cômodas, guarda-roupas de madeira e ventiladores.
Sistema construtivo, materiais e estado de conservação
Com pilares de concreto armado com cinta inferior apoiada em baldrame de pedra e superior apoiando o madeirame do telhado, o interior da moradia apresenta tijolo ainda sem reboco, piso cimentado e telhado sem forro, à exceção do banheiro, que possui piso e revestimento de cerâmica esmaltada. A edificação conta com energia elétrica, água obtida através de conexão com a rede pública por mangueiras e lixo coletado duas vezes por semana pelo serviço municipal. Com cerca de um ano de concluída quando da realização do cadastro, apresenta seus materiais e componentes em bom estado de conservação, exceto pelas esquadrias de ferro que, sem qualquer pintura, mostram início de corrosão.
Tipologia (se houver possibilidade de identificação)
Denominação técnica e popular do tipo
Casa de tijolo.
Como síntese de diferentes tecnologias construtivas populares, a moradia de tijolo cerâmico, pelo Maranhão afora, incorpora em sua volumetria os diferentes padrões construtivos da palha, da taipa de mão, do adobe e da madeira, adotando varandas, jogos de cobertura e colunas sobre áreas alagadas em uma liberdade compositiva e construtiva de grande criatividade.
Ameaças à continuidade do tipo
Ao contrário de ameaças à sua continuidade, as construções populares com tijolo cerâmico apresentam um potencial ao que parece ilimitado de adaptação às condições de posse da terra e características do solo. Incorporando as experiências tradicionais acumuladas com os demais materiais extraídos da natureza — palha, taipa de mão, adobe e madeira —, o tijolo cerâmico sob trabalho construtivo popular ganha formas e expressividades impensadas, conforme exposto nas suas variações e variantes.
Existe algum tipo de acautelamento, como patrimônio cultural material, imaterial ou natural relacionados a este verbete?
Sem qualquer tipo de acautelamento.
Referências
BURNETT, F. L. (Org.) Arquitetura como resistência: autoprodução da moradia popular no Maranhão. São Luis: Editora Uema/Fapema, 2020.
MONIZ FILHO, M. F.; OLIVEIRA, G. S.; BURNETT, F. L. Palha, Madeira, Terra. Projeto e Construção da Arquitetura Popular no Maranhão. Teresina: Cancioneiro, 2022.