Moradia de tijolo cerâmico e telhas de fibrocimento

Moradia em ocupação urbana de área particular nos fundos do Cemitério Municipal da cidade de Carolina, Maranhão, construída em seis meses através de mutirão familiar, onde vivem casal — o marido pescador, a esposa lavadeira —, dois filhos menores e um irmão da dona da casa que trabalha como ajudante de pedreiro.

Dados do Verbete

Data publicação do verbete: 12 de fevereiro de 2025
Data da última atualização do verbete: 30 de setembro de 2025

Detalhamento

Nome:
Moradia de tijolo e telha de fibrocimento
Denominação popular:
Casa de tijolo
Época de construção/Transformações:
Casa de tijolo
Localização - Estado:
Maranhão

Aspectos históricos, sociais, econômicos, culturais e geográficos relacionados à arquitetura vernácula

A ocupação ou invasão de terras urbanas, públicas ou privadas para fins habitacionais é prática histórica comum na urbanização brasileira e um procedimento que resultou nas favelas, vilas e mocambos consolidados nas grandes cidades do país. Sendo um processo com sucesso incerto, as práticas dos ocupantes costumam adotar a cautela no momento inicial, dada a possibilidade de ações legais de desocupação ocorrerem, o que explica a prudência nos investimentos iniciais relativos à construção das moradias. Levantadas de forma expedita com palha ou taipa de mão, os casebres marcam o território coletivo e as áreas particulares, à espera de uma definição quanto à permanência no local. Desta forma, a moradia construída na ocupação que, à época do cadastro, nem sequer tinha um nome e está localizada nos fundos do Cemitério Municipal Campo da Saudade, na sede municipal de Carolina, no sul do Maranhão, surpreende pela decisão de seus moradores em despender recursos e executar a obra utilizando materiais durável e custosos.

Época de construção/Transformações

DATA: 2018

Caracterização da arquitetura e das técnicas construtivas

Inserção na Paisagem

Analisar as relações estabelecidas entre as edificações e conjuntos edificados com a paisagem em que se encontram inseridos, quer seja urbana ou rural, destacando-se os aspectos que se sobressaem na configuração do cenário visualizado, quer sejam de ordem natural ou antrópica.

Implantação no espaço/lote

Implantada na parte posterior do lote compartilhado pelas duas irmãs, a moradia tem acesso pela lateral do terreno, deixado livre pela dimensão mais estreita da construção à sua frente. Neste trajeto de acesso foi implantada a entrada social da casa, realizada através de varanda lateral localizada na área mais baixa da cobertura que, em três planos, aumenta em altura em direção à lateral oposta onde alcança cerca de seis metros.

Volumetria, cobertura

Apesar das diferentes texturas e cores dos materiais de parede e telhado, a volumetria da edificação — um cubo truncado por um plano diagonal transversal à sua fachada principal — se apresenta com uma forte unidade, onde os panos de vedação vertical e horizontal se articulam harmonicamente.
Vista posterior da volumetria, com a janela do terceiro dormitório e o "puxado" da lavanderia. Latese, 2019

Fachada, vãos e esquadrias

Ainda sem reboco e pintura, portanto, com a alvenaria no osso, as fachadas deixam à mostra os pilares de concreto, modulados conforme as diferentes alturas da cobertura e os vãos das esquadrias das janelas de correr, em chapa de ferro, que também se instalam no centro dos panos de tijolos. A varanda, que ocupa o canto esquerdo, abre-se para as fachadas frontal e lateral com dois pilares de madeira de seção quadrada.
Padrão de porta interna da moradia, acesso ao terceiro dormitório. Latese, 2019

Planta e agenciamento interno

Através da varanda, na extremidade esquerda da construção, chega-se ao espaço integrado que reúne sala de estar, copa e cozinha e que ocupa toda a extensão do módulo central da moradia. Funcionando como circulação, este ambiente dá acesso aos três dormitórios, um deles nos fundos da varanda, os outros dois agrupados ao longo do módulo da direita, com o banheiro entre eles. Desta forma, correspondendo à simplicidade volumétrica da edificação, sua planimetria mantém o padrão rural, com o setor social na parte frontal da edificação e os serviços nos fundos, com acesso ao quintal.

Bens móveis e integrados e/ou mobiliário

No terraço e na sala de estar predominam poltronas com estrutura de ferro e fios de plástico conhecidos como macarrão. Na copa-cozinha, mesa com tampo de granito, cadeira de ferro, bancada com tampo do mesmo material da mesa da copa e cuba de inox, geladeira e fogão a gás. Na área de serviço, tanque de granilite e o “tanquinho”, máquina de lavar roupa sem centrifugação. Nos dormitórios, camas, cômodas, guarda-roupas de madeira e ventiladores.
Mobiliário do dormitório principal. Latese, 2019
Mobiliário dormitórios filhos. Latese, 2019

Sistema construtivo, materiais e estado de conservação

Com pilares de concreto armado com cinta inferior apoiada em baldrame de pedra e superior apoiando o madeirame do telhado, o interior da moradia apresenta tijolo ainda sem reboco, piso cimentado e telhado sem forro, à exceção do banheiro, que possui piso e revestimento de cerâmica esmaltada. A edificação conta com energia elétrica, água obtida através de conexão com a rede pública por mangueiras e lixo coletado duas vezes por semana pelo serviço municipal. Com cerca de um ano de concluída quando da realização do cadastro, apresenta seus materiais e componentes em bom estado de conservação, exceto pelas esquadrias de ferro que, sem qualquer pintura, mostram início de corrosão.
Detalhe da alvenaria de tijolos sem cinta superior no encontro com a cobertura. Latese, 2019
Esquadria da sala de estar, sem verga e contra-verga e início de corrosão por falta de pintura adequada. Latese, 2019
Contrastando com o volume unitário da moradia, a solução para a lavandeira recorre ao "puxadinho" protegido por telhas de fibrocimento também nas laterais. Latese, 2019

Tipologia (se houver possibilidade de identificação)

Denominação técnica e popular do tipo

Casa de tijolo.

Variações ou variantes

Como síntese de diferentes tecnologias construtivas populares, a moradia de tijolo cerâmico, pelo Maranhão afora, incorpora em sua volumetria os diferentes padrões construtivos da palha, da taipa de mão, do adobe e da madeira, adotando varandas, jogos de cobertura e colunas sobre áreas alagadas em uma liberdade compositiva e construtiva de grande criatividade.
Moradia com varanda corrida na fachada, Comunidade Quilombola Canelatiua, Alcântara, MA. Latese, 2020
Área de serviço de moradia em assentamento do MST, Zé Doca, MA. Latese, 2018
Palafita em tijolo ceramico com estrutura em concreto armado, Bairro Mangueirão, Cajari, MA. Latese, 2020

Ameaças à continuidade do tipo

Ao contrário de ameaças à sua continuidade, as construções populares com tijolo cerâmico apresentam um potencial ao que parece ilimitado de adaptação às condições de posse da terra e características do solo. Incorporando as experiências tradicionais acumuladas com os demais materiais extraídos da natureza — palha, taipa de mão, adobe e madeira —, o tijolo cerâmico sob trabalho construtivo popular ganha formas e expressividades impensadas, conforme exposto nas suas variações e variantes.

Existe algum tipo de acautelamento, como patrimônio cultural material, imaterial ou natural relacionados a este verbete?

Sem qualquer tipo de acautelamento.
Referências

BURNETT, F. L. (Org.) Arquitetura como resistência: autoprodução da moradia popular no Maranhão. São Luis: Editora Uema/Fapema, 2020. MONIZ FILHO, M. F.; OLIVEIRA, G. S.; BURNETT, F. L. Palha, Madeira, Terra. Projeto e Construção da Arquitetura Popular no Maranhão. Teresina: Cancioneiro, 2022.