MORADIA DE TIJOLOS DE ADOBE E TELHAS CERÂMICAS PLANAS
Moradia na Fazenda Santo Antônio, Parque Nacional Chapada das Mesas, município de Carolina, Maranhão, onde residem dois irmãos dos cinco filhos de pais falecidos, proprietários das terras, e um sobrinho, vivendo de roças de arroz, feijão, milho, banana e mandioca, antes também criavam galinhas, porcos e carneiros, atividade inviabilizada pelos constantes ataques de onças aos rebanhos.
Aspectos históricos, sociais, econômicos, culturais e geográficos relacionados à arquitetura vernácula
Ao lado das construções populares em taipa de mão, as moradias de tijolo de adobe correspondem a um percentual relativamente significativo do total do Maranhão, mas restritas principalmente ao bioma do Cerrado, onde inexistem recursos madeireiros do bioma da Amazônia ou a presença de comunidades organizadas que tenham desenvolvido a técnica da queima artesanal dos tijolos. Sua existência se relaciona à tradição de construções de terra, constituindo uma qualificação do sistema da taipa de mão, exigindo procedimentos prévios de planejamento e estocagem do material. Do ponto de vista das estatísticas oficiais do Sistema de Informações de Atenção Básica do Ministério da Saúde – SIAB/MS, as moradias de adobe são computadas juntamente com o tijolo maciço e o industrial, o que impossibilita identificar o quantitativo ou percentual do tipo. Assim como a moradia de palha, a casa de adobe é, no Maranhão, um produto do meio rural, vinculado à impossibilidade logística ou financeira de aquisição dos materiais amplamente comercializados, sem desconsiderar, no entanto, o valor cultural da qualidade térmica do adobe para muitas famílias com condições de adquirir tijolos cerâmicos. Seu uso implica que a família tem a posse da terra e dispõe de tempo para a relativamente lenta construção de sua moradia, com processo produtivo mais lento que a palha ou a taipa de mão.
Época de construção/Transformações
DATA: Construção de 1989, com expansão da área da copa-cozinha, obrigando a utilização de calha de zinco entre os dois módulos para não interferir nas águas da cobertura do corpo original da moradia. A inexistência de calçada à volta da nova construção é um diferencial que parece comprovar também um certo rebaixamento na qualidade construtiva do primeiro corpo da edificação.
Caracterização da arquitetura e das técnicas construtivas
Inserção na Paisagem
Analisar as relações estabelecidas entre as edificações e conjuntos edificados com a paisagem em que se encontram inseridos, quer seja urbana ou rural, destacando-se os aspectos que se sobressaem na configuração do cenário visualizado, quer sejam de ordem natural ou antrópica.
Implantação no espaço/lote
Recuada cerca de 10 metros da linha da cerca frontal, a casa marca uma transição entre o espaço de ingresso à propriedade, o descampado que destaca a construção, e a parte posterior da edificação, repleta de árvores e palmeiras entremeadas por anexos de diversos tamanhos e funções: ranchos, paióis, jiraus, casa de banho e sentina. Dentro da tradição de zonificação da casa popular, que separa usos social e íntimo dos serviços de cozinha, esta se instala em corpo à parte, construído posteriormente como “puxado” da moradia, assimétrico em relação ao corpo principal e maior.
Com 17 metros de extensão da fachada principal e 6 metros da lateral, o retângulo do corpo principal faz prevalecer a horizontalidade da edificação quando vista da entrada da propriedade, proporção reforçada pela barra inferior e o volume regular da cobertura de telhas marrom escuro em quatro águas. O anexo da cozinha, medindo 5m x 8m e utilizando os mesmos materiais e sistema construtivo do corpo principal, mantem o padrão da cobertura em quatro águas, exigindo a presença de uma calha de zinco ao longo do encontro dos dois volumes e que desagua livre sobre uma das laterais. Devido ao peso das telhas de cerâmica, toda a estrutura da cobertura é independente das paredes de adobe, apoiando-se em esteios de maçaranduba que recebem tesouras a repousar em vigamento também de madeira roliça a contornar toda a construção. Desta forma, sem função estrutural das paredes, foi possível praticar rasgos longitudinais nos panos de adobe da sala e da cozinha, que marcam a entrada principal e resolvem as necessidades de iluminação e ventilação sem uso de esquadrias. No espaço livre da cozinha, um pilar central recebe o vigamento do madeirame da cobertura que, com quatro águas, evita o uso de tesouras.
Fachada, vãos e esquadrias
Repetindo os critérios econômicos das moradias populares, são reduzidos os vãos com esquadrias na construção, limitados às janelas dos dormitórios, pois tanto na sala quanto na cozinha, graças a independência entre estrutura do telhado e a alvenaria de adobe, foi possível executar estreitas aberturas horizontais na parte superior das paredes, servindo para ventilação/iluminação e contornando a necessidade de gastos com folhas de vedação. Desta forma, somente as portas de acesso à sala e à cozinha e três pequenas janelas dos dormitórios exigiram o uso de tabuas de madeira. O conjunto assim formado de fachadas, cobertura e vãos mantem a relação predominante dos dois primeiros elementos e fazem prevalecer a massa de paredes e telhado, compatível com a necessária adaptação ao clima que predomina na região.
Planta e agenciamento interno
Organizada em dois corpos conectados formando um L, a moradia conta com sala de estar e quatro dormitórios no corpo principal de 100 m² e, no apêndice, um só ambiente com 40 m² abriga copa e cozinha e a pequena despensa com porta. Sem varanda ou vestíbulo, o acesso dá diretamente na sala de estar, que ocupa o centro do corpo principal da edificação, tendo no lado esquerdo o dormitório maior dos pais, com porta abrindo para a o fundo da sala e, à direita, o conjunto dos outros três quartos, todos com diferentes dimensões e acessíveis através do largo corredor por onde se chega também à copa e à cozinha. Ao longo das paredes da sala de estar e da copa-cozinha uma abertura contínua, de 40 cm de altura e sem esquadria, deixa a viga-frechal do telhado livre em toda sua extensão.
Bens móveis e integrados e/ou mobiliário
Com os tijolos de adobe rebocados e pintados externa e internamente, a moradia tem mobiliário reduzido: na sala, banco corrido de madeira lavrada com apoios fixados no piso de cimento, e poltronas com estrutura de ferro e fio de plástico conhecido como macarrão; na copa-cozinha e no corredor, mesa de madeira, três fogões a gás de diferentes tamanhos e um fogão de barro a lenha; nos dormitórios, poucos moveis se misturam a redes e material diverso estocado em caixas de papelão e sacos de plástico, expressão de uma moradia de homens solteiros. Um único elemento decorativo, um porta-retrato com fotos dos cinco irmão quando crianças, se encontra fixado à parede, sobre a mesa do corredor.
Sistema construtivo, materiais e estado de conservação
Somando quase 150 m² de área coberta, com materiais de qualidade e construção contratada a terceiros, a moradia é fruto das posses dos seus proprietários, mas sua conservação atual denota a situação dos seus moradores, dois homens de meia idade vivendo separados de suas esposas. A cobertura do imóvel, independente das paredes de tijolos de adobe, após mais de três décadas da construção, apresenta bom estado de conservação, tanto da madeira de lei da estrutura, quanto das telhas cerâmicas planas, uma tradição construtiva da região, pois encontradas também em outros municípios pesquisados. Graças à calçada de cimento que contorna toda a construção principal, protegendo os tijolos de adobe da umidade do solo, a condição de conservação das paredes apresenta razoável estado de conservação, exceto poucos pontos onde há desprendimento do reboco; o rompimento parcial da parede lateral da copa-cozinha — à época escorada de forma improvisada com troncos retirados das matas próximas — indica que sua construção não atentou para a necessária confecção da calçada de proteção do imóvel. Quanto às folhas e caixilhos das esquadrias, graças à qualidade da madeira e a proteção do beiral do telhado, se encontram em razoável estado de conservação.
Tipologia (se houver possibilidade de identificação)
Denominação técnica e popular do tipo
Para além da denominação popular da tipologia, conhecida como casa de adobe ou adobo, a composição em perpendicular dos volumes da moradia popular é reconhecida na região leste do Maranhão, mais precisamente dos municípios de Caxias e Aldeias Altas, como “casa de canto quebrado”, termo não utilizado no sul do estado.
As construções em tijolos de adobe existem em grandes número de variações de materiais de cobertura e revestimento do material, processo que em situação de dificuldades financeiras dos moradores ou se resume ao uso da palha para o telhado ou a exposição dos tijolos de barro às intemperies, reduzindo signficativa sua conservação sem a presença do reboco e da pintura a base de cal.
Ameaças à continuidade do tipo
Material de excelente desempenho térmico, indicado para o clima tropical úmido do Maranhão, o tijolo de adobe é superior à taipa de mão em conforto ambiental e estabilidade construtiva, apesar do perímetro inferior da construção em contato com o solo ser o ponto fraco do sistema, pois tem baixa resistência à água e umidade do solo. Sempre que possível, seus construtores utilizam baldrames de pedra preta com argamassa de barro ou mesmo cimento, buscando evitar o contato direto dos tijolos com o solo, uma solução nem sempre viável pela inexistência do material, porém a pesquisa localizou moradias de adobe com décadas de existência e boas condições de conservação. A grande ameaça à continuidade do adobe é o tijolo cerâmico de seis furos que, apesar de inferior em termos de conforto térmico, não exige o esforço físico dos que constroem com tijolo de adobe, com peso médio de 6,0 a 8,5 quilos e dimensões de 17cm x 28cm x 9cm, conforme medições realizadas nos municípios de Primeira Cruz, Loreto e Brejo, respectivamente nas regiões Norte, Leste e Sul do Maranhão. Mas, escorado em razões de isolamento geográfico para compra e recebimento e/ou falta de recursos financeiros para compra de tijolos cerâmicos, as construções de adobe seguem sendo realizadas em muitas regiões do estado, com seus construtores tradicionais que dominam o processo de extração, confecção e construção. Com baixar resistência à tração, os tijolos exigem expedientes técnicos para uso de redes nos ambientes da construção, comuns no Maranhão, problema resolvido com o uso de armadores que servem a dois ambientes contíguos ou uso de travessa de madeira junto a toda a extensão da parede e fixado nas empenas laterais do ambiente.
Existe algum tipo de acautelamento, como patrimônio cultural material, imaterial ou natural relacionados a este verbete?
Sem qualquer tipo de acautelamento.
Referências
BURNETT, F. L. (Org.) Arquitetura como resistência: autoprodução da moradia popular no Maranhão. São Luis: Editora Uema/Fapema, 2020.
MONIZ FILHO, M. F.; OLIVEIRA, G. S.; BURNETT, F. L. Palha, Madeira, Terra. Projeto e Construção da Arquitetura Popular no Maranhão. Teresina: Cancioneiro, 2022.