Moradia em taipa de mão e cobertura de palha

Moradia em Santa Luzia, comunidade de famílias de agregados de fazenda particular do município de Cantanhede, Maranhão, que pagam dois alqueires de roça por linha plantada ao proprietário, edificação construída através de força de trabalho familiar, abriga casal e quatro filhos que vivem da roça, pesca, coleta de coco babaçu, produção de farinha de mandioca e criação de galinhas, porcos e caprinos.

Dados do Verbete

Data publicação do verbete: 12 de fevereiro de 2025
Data da última atualização do verbete: 12 de fevereiro de 2025

Detalhamento

Nome:
Taipa de mão com cobertura de palha
Denominação popular:
Casa de taipa
Época de construção/Transformações:
Casa de taipa
Localização - Estado:
Maranhão

Aspectos históricos, sociais, econômicos, culturais e geográficos relacionados à arquitetura vernácula

As construções populares em taipa de mão sobressaem no quantitativo da arquitetura autoproduzida por populações pobres, rurais e urbanas, do Maranhão, sendo em muitos casos uma estratégia provisória e de curta duração para resolver o problema da moradia, condição em que a precariedade construtiva está relacionada à urgência de posse de uma área. Mas tem, também, uma significativa presença em construções de terra de alta qualidade, com introdução de melhorias construtivas que permitem décadas de conservação das condições de habitabilidade da moradia. Condição exigida pelos grandes proprietários de terras no Maranhão para acolher famílias de agregados ou moradores de favor, pois não implica em indenizações quando, por qualquer razão, ocorrer a saída espontânea ou compulsória dos ocupantes, a persistência da casa de taipa de mão está relacionada com a ausência de direitos sobre a terra de grandes contingentes rurais. Transportada para as beiradas das cidades, por meio dos processos de invasão de terras vazias, a moradia de taipa é um forçoso estágio entre a insegurança inicial da ocupação e a instauração de acordos políticos ou jurídicos que irão estabilizar a comunidade; neste momento, os esforços familiares se dirigem à melhoria ou reconstrução da moradia em busca de uma imagem formal condizente com o espaço urbano.

Época de construção/Transformações

DATA: Conforme depoimento do chefe de família, a construção tinha, à época do trabalho de campo, em 2019, “mais de 20 anos”.

Caracterização da arquitetura e das técnicas construtivas

Inserção na Paisagem

Analisar as relações estabelecidas entre as edificações e conjuntos edificados com a paisagem em que se encontram inseridos, quer seja urbana ou rural, destacando-se os aspectos que se sobressaem na configuração do cenário visualizado, quer sejam de ordem natural ou antrópica.

Implantação no espaço/lote

Implantada no limite frontal do lote e ocupando toda sua largura, a moradia funciona como demarcação do seu terreno, um volume longitudinal aberto em sua fachada principal pelo espaço intermediário da varanda e fechado por vão cegos nas laterais. Os três outros lados do terreno sao delimitados com “cercas de faxina” (mourões fixados verticalmente, próximos uns aos outros e amarrados com cipós ou travessas horizontais). Como anexos de trabalho, os moradores contam com casa de banho, paiol para guarda de materiais e rancho para serviços diversos.

Volumetria, cobertura

Seguindo o padrão estético das moradias populares com cobertura em duas águas, as empenas da construção se localizam nas laterais, com a fachada principal ostentando o beiral do telhado, neste caso apoiado nos sete montantes de madeira de lei da varanda frontal. A extensão da construção e a forte inclinação exigida pela cobertura de palha de pindoba compõe um conjunto equilibrado do pano de cobertura e a massa da alvenaria de taipa de mão.

Fachada, vãos e esquadrias

Conforme os critérios econômicos adotados pelas construções populares, predominam os panos cegos e os vão externos são poucos e de reduzidas dimensões, devido aos custos do material e da confecção das folhas de portas e janelas. Por isso, a moradia conta com três portas externas — uma para a sala, outra para o depósito e a terceira para a cozinha — e duas folhas de portas internas — dormitório dos pais e de um dos filhos; enquanto as janelas de folhas de abrir, em número de cinco, estão presentes em dois quartos, na área de circulação e na cozinha, aqui combinada com o jirau para lavagem de louças e panelas.

Planta e agenciamento interno

Fugindo do padrão tradicional de organização interna da moradia popular (Woortmann, 1981), a construção se organiza em planta longitudinal e retangular medindo 12m x 4,50m, paralela à testada do lote, tendo uma estreita varanda ao longo de toda a construção. A organização interna divide a moradia em três setores, na extremidade esquerda se encontra o dormitório dos pais com acesso pela sala de estar; no centro uma larga circulação liga social e serviço, com espaço para refeições e acesso aos dois dormitórios dos filhos; na ponta esquerda da moradia, o setor de serviços, com depósito/garagem de motocicleta com acesso à copa-cozinha por onde se chega ao quintal.

Bens móveis e integrados e/ou mobiliário

Sobre o reboco grosso da taipa de mão, que predomina no acabamento interno e externo da edificação, sobressaem os arranjos decorativos da sala de estar, um deles feito com grande pano de chita colorida, o outro em tecido semitransparente que serve de fundo para quadros religiosos e retratos familiares. Uma cortina de estampas coloridas de grandes dimensões protege o acesso a um dos dormitórios e decora a área de passagem e espaço de refeição da família. Com exceção do fogão de barro a lenha, incorporado à parede e piso da cozinha, todo o mobiliário — sofás, cadeiras de balanço, rack de som e TV, mesas e cadeira, camas e guarda-roupas — é produto industrial ou de marcenarias locais. Como eletrodomésticos, a família tem geladeira, fogão a gás e ventilador no quarto dos pais.

Sistema construtivo, materiais e estado de conservação

Norma construtiva da moradia de agregados ou moradores de favor, a casa de taipa de mão e coberta de palha ou Construída com trabalho de toda a família em 30 dias, a moradia em taipa de pilão com forquilhas de aroeira e pau d’arco, tem cobertura com madeirame roliço tudo recolhido na região e 1.300 feixes de palhas de babaçu comprado de terceiros, piso da varanda e da casa em terra batida, com exceção da sala de estar em cimento queimado, folhas de portas e janelas em tábuas de madeira, vão internos sem portas com cortinas de tecido. Taipa de mão das paredes externas e internas, assim como todo o madeirame estrutural das paredes e da cobertura em razoável estado de conservação.

Tipologia (se houver possibilidade de identificação)

Denominação técnica e popular do tipo

Taipa de mão

Variações ou variantes

São incontáveis as variações da tipologia da casa de taipa, mas quase sempre preservando a relação entre espaços sociais, íntimos e de serviço, uma separação relacionada ao gênero e ao trabalho doméstico. Na volumetria, as composições se organizam principalmente em torno de uma planta compacta, com dimensões padronizadas conforme o número de dormitórios e os formatos da cobertura, principalmente de quando de palha, cuja leveza permite grande número de combinações. As aberturas variam desde esteiras de meaçaba nas situações mais simples, a vãos sem tapagem, fechados pela malha de madeira ou folhas de tábuas de produção local ou em carpintarias próximas.

Ameaças à continuidade do tipo

Dentre todos os tipos de construção tradicional popular no Maranhão, a taipa de mão é aquela com maior capacidade de resistência às ameaças para sua continuidade, apesar de sofrer um processo de rebaixamento na qualidade das edificações. Por um lado, o saber tradicional vem sofrendo perda de continuidade, pela propagação do uso do tijolo cerâmico no meio rural, ainda com problemas de acessibilidade a locais isolados, ou por questões geracionais, com a ocupação dos jovens em atividades não agrícolas e mesmo pela migração para as cidades; por isso, o uso da taipa de mão pode se concentrar nas famílias de agregados das zonas rurais, proibidos de construir com outros materiais, e nas invasões/ocupações urbanas, onde a urgência em marcar território, leva em um primeiro momento a utilizar o casebre de palha enquanto o novo assentamento se consolida e viabiliza investimento em melhorias habitacionais. De todos os modos, a variedade na distribuição dos ambientes e nas volumetrias adotadas será afetada por todo este processo, pois, para além da possibilidade de extinção de uma tipologia construtiva, estamos diante da perda da autonomia familiar perante a construção de sua moradia.

Existe algum tipo de acautelamento, como patrimônio cultural material, imaterial ou natural relacionados a este verbete?

Sem qualquer tipo de acautelamento, todo a comunidade estava sob risco de permanência no local quando do momento da pesquisa (2019), pois com o falecimento do proprietário da terra, seus herdeiros tinham intenção em vender a fazenda, com ameaça de desalojamento das famílias.
Referências

BURNETT, F. L. (Org.) Arquitetura como resistência: autoprodução da moradia popular no Maranhão. São Luis: Editora Uema/Fapema, 2020. WOORTMANN, K. Casa e família operária. Anuário Antropológico, Vol. 5, Nº 1, 1981, p. 119-150. Disponível em https://periodicos.unb.br/index.php/anuarioantropologico/article/download/6139/7833/15828.