Palafita de madeira e telhas cerâmicas

Moradia no bairro Rabelão, sede do município de Turiaçu, Maranhão, em terreno adquirido de terceiros, construída pelo sistema de empreitada, onde residiam, à época da pesquisa, avó e sua neta, vivendo de aposentadoria e prestação de serviços no salão de cabelereiro que funciona no térreo da edificação.

Dados do Verbete

Data publicação do verbete: 28 de dezembro de 2024
Data da última atualização do verbete: 30 de setembro de 2025

Detalhamento

Nome:
Palafita de madeira e telha cerâmica
Denominação popular:
Palafita de madeira
Época de construção/Transformações:
Palafita de madeira
Localização - Estado:
Maranhão

Aspectos históricos, sociais, econômicos, culturais e geográficos relacionados à arquitetura vernácula

A moradia construída em madeira é uma tradição na região amazônica do Maranhão, onde o acesso livre à exploração dos recursos florestais e o valor utilitário dos diferentes tipos de árvores foram disseminando um saber para a produção de mobiliário, utensílios e casas. A proliferação de pequenas serrarias nas periferias dos centros urbanos, aptas a beneficiar a madeira e possibilitar diferentes padrões de cortes para confecção das moradias, fornece desde peças estruturais — como pilares, vigas e barrotes de assoalho — a tábuas para paredes internas e externas, pisos e esquadrias. A palafita rural, adotada em áreas ribeirinhas e inundáveis, se transfere para as beiradas urbanas de muitas das sedes municipais da região maranhense, passando a experimentar um processo de qualificação quanto às dimensões, formas e acabamentos, mais ou menos influenciado pelo meio urbano (KAPP; BALTAZAR, 2021).

Época de construção/Transformações

DATA:

1999

Caracterização da arquitetura e das técnicas construtivas

Inserção na Paisagem

Analisar as relações estabelecidas entre as edificações e conjuntos edificados com a paisagem em que se encontram inseridos, quer seja urbana ou rural, destacando-se os aspectos que se sobressaem na configuração do cenário visualizado, quer sejam de ordem natural ou antrópica.

Construída

O volume da edificação tem afastamento lateral esquerdo da moradia vizinha e do igarapé que corre no seu lado direito, destacando-se do conjunto edificado pela altura em dois pavimentos para abrigar os dois dormitórios conjugados no corpo frontal da construção, mantendo o padrão comum de combinação de cores contrastantes da fachada e das folhas das portas e janelas.

Implantação no espaço/lote

À diferença do padrão simples da palafita, onde as circulações se resumem ao espaço interior, dada a inexistência de área circulante à construção, a moradia conta com espaço lateral aterrado, permitindo acesso aos fundos pelo seu exterior, onde possui quintal arborizado.
Inserção na paisagem construída da palafita de dois pavimentos. (Latese, 2019)
Vista da via de acesso e implantação frontal da moradia. (Latese, 2019)

Vista lateral direita da palafita, com área de circulação externa. (Latese, 2019)

Volumetria, cobertura

A simplicidade construtiva da moradia popular expressa sua economia de meios na volumetria da palafita, combinando o corpo frontal em dois pavimentos e o posterior térreo. Em ambos os volumes, os panos de vedação externos acompanham o alinhamento dado pela estrutura portante de assoalho e cobertura, abertos apenas para dar lugar a portas e janelas. Enquanto o primeiro volume dialoga com a via pública e mantem o padrão estético da cobertura das construções populares que, evitando empenas na fachada, dá preferência ao beiral voltado para a rua, a construção dos fundos tem o telhado em duas águas, lançadas para as laterais livres do terreno.
Dormitório do pavimento superior com estrutura da cobertura. (Latese, 2019)
Copa-cozinha e estrutura da cobertura. (Latese, 2019)
Volumetria da parte posterior com diferentes planos e materiais de cobertura. (Latese, 2019)

Fachada, vãos e esquadrias

Como ocorre com os demais tipos construtivos populares, em geral, as edificações adotam uma economia de meios de expressão, sem volumetrias nas fachadas e reduzidos vãos de iluminação e ventilação. São raros os casos de varandas, muitas vezes feitas posteriormente, assim como os “puxados” da área de serviço que ampliam a área de copa e cozinha. Intimamente relacionada com a estrutura da cobertura, o sistema portante da palafita exige regularidade formal, contribuindo para a adoção de panos de telhados simples. Assim, temos um sistema que, excetuando a cobertura, toda a edificação utiliza madeira em fachadas e esquadrias, quase sempre de abrir, recorrendo-se a dobradiças e ferrolhos de metal para seu funcionamento.
Vista interna do salão de beleza, com a porta de entrada dividida em duas folhas para funcionar também como janela. (Latese, 2019)
Esquadrias da sala de estar com grade de ferro na janela. (Latese, 2019)
Área de serviço com jirau na janela e porta cancela com janela. (Latese, 2019)

Planta e agenciamento interno

A moradia se organiza conforme a tradição popular que implanta a área social com acesso pela via pública, as áreas de serviço nos fundos e a parte íntima dividida entre os pavimentos inferior e superior. A sala de estar, que ocupa a metade direita do bloco dianteiro da construção, possui janelas para a rua e dá acesso à copa-cozinha, está dividida em duas pela escada de acesso aos dois dormitórios do andar de cima. Através da espaçosa copa-cozinha, que preenche toda a largura da construção, se chega à circulação que leva ao quintal, onde ficam o fogão a gás e o banheiro, com pia e chuveiro separados do vaso sanitário. Nos fundos da construção, acessível pela porta lateral da copa-cozinha, se encontra o tanque de lavar roupa e a caixa d’água de fibra de vidro, elevada por torre em alvenaria de tijolos rebocados e pintados e apoiada em laje de concreto.
Plantas baixas pavimentos térreo e superior. (Latese, 2019)
Sala de estar. (Latese, 2019)
Salão de beleza. (Latese, 2019)

Bens móveis e integrados e/ou mobiliário

O mobiliário é composto por cadeiras de plástico do tipo monobloco na sala de espera e no salão de beleza, sofás na sala de estar, mesa e cadeiras, bancada e móvel na copa-cozinha, além de eletrodomésticos, como geladeira, tanquinho, fogão a gás, bancada de granilite com cuba de alumínio. Nos dormitórios, há camas e colchões, redes, mosquiteiros, cômoda e guarda-roupa de madeira.
Copa cozinha com bancada e geladeira. (Latese, 2019)
Rede, guarda-roupa e cama do dormitório superior. (Latese, 2019)
Sala de espera do salão de cabelereiro. (Latese, 2019)

Sistema construtivo, materiais e estado de conservação

Com 90 m² de área coberta em dois pavimentos e construída por empreitada contratada pela família há cerca de 25 anos, a casa conta com materiais adquiridos em comércios locais e da cidade, como madeira estrutural e tábuas obtidas em serrarias e telhas cerâmica do tipo capa-canal, que se encontravam em bom estado de conservação à época do registro. O corpo frontal em dois pavimentos, medindo 6m x 4m, e o apêndice nos fundos do lote, com 6m x 8m, são fechados interna e externamente com tábuas de madeira com cerca de 20cm de largura, estruturadas em montantes que arrancam do terreno alagadiço original e sustentam a estrutura do primeiro pavimento e da cobertura. Portas e janelas de abrir, também de tábuas de madeira, completam o sistema da edificação. As fachadas e ambientes internos são pintados com esmalte sintético em cores coloridas fortes. Apenas as instalações sanitárias, incorporadas aos fundos da edificação estão construídas em alvenaria de tijolos de seis furos e revestidas parcialmente com cerâmica esmaltada. Externamente, a edificação apresenta alguns sinais de deterioro nas fachadas devido à chuva e umidade da região, diferentemente do interior, onde prevalecem as boas condições de conservação.
Vedação do encontro das tábuas na fachada da moradia. (Latese, 2019)
Painel interno com tabuas sobrepostas. (Latese, 2019)
Tabuado da copa-cozinha com frestas devido à contração das tábuas. (Latese, 2019)

Tipologia (se houver possibilidade de identificação)

Denominação técnica e popular do tipo

Palafita em área alagadiça.

Variações ou variantes

Como as demais tipologias construtivas populares, a palafita é o padrão que prevalece em ocupações populares em áreas rurais e urbanas alagadiças, sempre com possibilidades de expansão da área coberta. Este procedimento sempre ocorre de forma horizontal, uma vez que verticalizar a construção existente implica na capacidade de sobrecarga da estrutura original de madeira. Da mesma forma que a verticalização, também são raros os casos de varandas, pois sacrificam espaço interno útil. Ainda que não sejam palafitas no sentido estrito do termo, pois não se levantam sobre áreas alagadas, moradores de regiões de solo arenoso do litoral maranhense, onde rareia o barro para a taipa de mão ou tijolo adobe, costumam utilizar o mesmo sistema construtivo, com assoalho elevado ou piso cimentado.
Varanda lateral entalada em palafita, Bairro Rabelão, Turiaçu, MA. (Latese, 2019)
Varanda lateral entalada em moradia sobre solo arenoso, Ilha Cunhã Coema, Turiaçu, MA. (Latese, 2019)
Sala de moradia em madeira com sistema construtivo idêntico à da palafita, Buriticupu, Maranhão. (Latese, 2019)

Ameaças à continuidade do tipo

A permanência da palafita, uma edificação de rápida construção, se deve à ocupação de áreas alagadas e está vinculada às práticas de extrativismo de povos tradicionais. De construções rápidas e improvisadas com materiais diretamente coletados nas redondezas, o tipo foi se aperfeiçoando tanto em zonas rurais quanto urbanas, adotando-se o uso do tijolo e do concreto armado, conforme apontado no verbete Palafita de palha e telha cerâmica. Na zona rural, se mostra mais estável em relação ao sistema estrutural que lhe nomeia, mas, na zona urbana, o processo de aterramento das áreas alagadiças inicialmente ocupadas tem levado à sua substituição por moradias com baldrames de pedra e cimento e alvenaria de vedação de tijolos cerâmicos. O caso aqui exposto tem a particularidade de se localizar em bairro urbanizado, com vias asfaltadas e passeios cimentados, que, na maioria dos casos, esconde os montantes das palafitas ao longo das vias.

Existe algum tipo de acautelamento, como patrimônio cultural material, imaterial ou natural relacionados a este verbete?

Sem qualquer tipo de acautelamento.
Referências

BURNETT, F. L. (Org.) Arquitetura como resistência: autoprodução da moradia popular no Maranhão. São Luis: Editora Uema/Fapema, 2020. MONIZ FILHO, M. F.; OLIVEIRA, G. S.; BURNETT, F. L. Palha, Madeira, Terra. Projeto e Construção da Arquitetura Popular no Maranhão. Teresina: Cancioneiro, 2022. KAPP, S.; BALTAZAR, A. P. Vernacular Metropolitano. In KAPP, S.; BALTAZAR, A. P. (Orgs.) Moradia e outras margens, Volume 2. Belo Horizonte: MOM, 2021, p. 339-350.