Palafita de palha e telhas cerâmicas
Moradia em Coelho, comunidade às margens do Rio Maracu, município de Cajari, Maranhão, construída por empreitada, em área de cheia do rio, abriga casal e três filhos menores que vivem da pesca e da criação de porcos que comercializam em feiras dos municipios de Cajari e Viana.
Aspectos históricos, sociais, econômicos, culturais e geográficos relacionados à arquitetura vernácula
Localizado na Baixada Maranhense, região de campos e tesos à oeste do estado, o municipio de Cajari se originou de antigas fazendas de açucar, cuja sede se localizava às margens do rio Maracu. A partir da abolição da escravatura, tornou-se local de moradia de ex-escravizados, passando a ampliar suas atividades regionais que resultaram na emancipação dos vizinhos em 1948. Com uma população abaixo de 17 mil habitantes pelo Censo de 2022, cerca de 60% de sua população tinha em 2010 rendimento médio mensal de meio salário mínimo e 77% dos habitantes viviam na zona rural. As ocupações de terras devolutas, a prática da pesca e da criação de pequenos e médios animais predomina nas formas de vida local. Neste contexto sócio-econômico, a autoprodução da moradia acontece através do trabalho familiar, ajuda de parentes e vizinhos ou mão de obra por empreitada, onde os cursos de água, perenes ou não, são regiões onde predominam as moradias em sistema de palafitas construidas com materiais diretamente retirados da natureza, a palha de pindoba e a madeira de lei.
Época de construção/Transformações
DATA: Construída em 2015, registro feito em 2019.
Caracterização da arquitetura e das técnicas construtivas
Inserção na Paisagem
Analisar as relações estabelecidas entre as edificações e conjuntos edificados com a paisagem em que se encontram inseridos, quer seja urbana ou rural, destacando-se os aspectos que se sobressaem na configuração do cenário visualizado, quer sejam de ordem natural ou antrópica.
Implantação no espaço/lote
As moradias ao longo de cursos d’água geralmente são implantadas com a fachada principal voltada para aquela que é a principal via de acesso, seja na época das cheias ou no estio. Suspensa da área alagável, a entrada à casa se dá através de escada de encosto que apoia na soleira da porta da sala de estar e, na fachada oposta, uma porta de serviço dá acesso ao jirau para uso da cozinha, lavagem de louça e panelas e uso de fogareiro a carvão, mas também serve de horta. Uma cerca de varas de arariba, contorna a construção e evita a entrada de porcos e búfalos da vizinhança, criados soltos conforme o costume local. Como construções de apoio, os anexos:e uma pocilga elevada e uma casa de banho, esta também com paredes de palha, na lateral direita da moradia, buscam escapar da subida das águas.
Sobre uma planta quase quadrangular, a construção ergue-se sobre esteios de maçaranduba com cobertura de duas águas com a cumeeira paralela à fachada principal, a volumetria da moradia adota formas simples que facilitam a construção e a manutenção periódica do material de vedação das paredes externas.
Fachada, vãos e esquadrias
Acompanhando a volumetria, a composição das fachadas, onde predomina os panos cegos, conta apenas com os vãos de 2 portas, uma social outra de serviço, e três janelas, uma em cada quarto e outra na sala de estar. Os matérias de vedação — palha nas fachadas, portas e janelas de tábuas de madeira pintadas em esmalte sintético verde, as telhas cerâmicas — dão as cores da edificação, em tons avermelhados, bege e verde.
Planta e agenciamento interno
Com quatro ambientes — sala, dois quartos e copa-cozinha —, separados por três panos de vedação de palha, a moradia se organiza a partir do montante central de madeira que apoia a linha da cumeeira e delimita a parede comum da sala de estar e do quarto maior, dos pais. Na outra metade da construção, um quarto menor, dos filhos, compartilha a fachada principal com a sala de estar e o restante do espaço é ocupado pela copa-cozinha, em uma composição onde inexiste área de circulação separada dos ambientes. Piso de tábuas corridas, estrutura do telhado em madeira aparelhada e telhas vãs, cortinas de chita colorida nos vãos dos quartos completam a ambientação interna.
Bens móveis e integrados e/ou mobiliário
No conjunto interno onde inexistem revestimentos dos matérias de construção, sejam pisos, paredes ou cobertura, sobressaem o mobiliário industrial. Conjunto estofado e rack de TV e som na sala de estar, redes, cama, cômoda e guarda-roupa de madeira nos dormitórios, conjunto de mesa, cadeiras e armários revestidos em laminado melamínico e bancada de trabalho na cozinha. Geladeira, fogão, máquina de lavar roupa (chamado de tanquinho, pois não possui centrifugação), porta-panelas e ventiladores de pé constituem os eletrodomésticos da família. Panos de chita sobre paredes de palha dos dormitórios, mosquiteiros suspensos
Sistema construtivo, materiais e estado de conservação
Edificada toda em estrutura de maçaranduba, madeira de lei disponível na região, os montantes dos cantos e do centro da palafita se elevam para apoiar o madeirame do telhado, em madeira aparelhada. Uma trama secundária de madeira completa a malha onde será fixada a palha de pindoba. Os vãos de portas e janelas são instalados entre os montantes secundários e vedação, exigindo a presença de travessa inferior e superior para fixação das esquadrias.
Tipologia (se houver possibilidade de identificação)
Ameaças à continuidade do tipo
O cada vez mais difícil acesso à palha de pindoba tem tornado dispendioso o uso do material, que, por condições próprias, perde elasticidade e resseca, permitindo infiltrações de água de chuva após alguns anos e exigindo sua substituição. Em função disso, já existem variantes da palafita da Baixada que adotam há algum tempo a madeira como vedação e, mais recentemente, até mesmo o concreto armado e o tijolo cerâmico como materiais mais resistentes e duráveis.
Existe algum tipo de acautelamento, como patrimônio cultural material, imaterial ou natural relacionados a este verbete?
Não existe qualquer intenção de medidas assim, pelo contrário, há um forte preconceito e mesmo estigma de vários grupos sociais em relação às palafitas enquanto alternativa acessível e sustentável de moradia popular como solução á falta de terra e recursos financeiros e técnicos.
Referências
Burnett, F. L. (Org.) Arquitetura como resistência. Autoprodução da moradia popular no Maranhão. São Luís: Editora Uema, 2020.